A cada amanhecer, o cidadão busca os mapas que orientam o seu dia. Entre eles, a grade de programação da televisão aberta parece um roteiro simples, uma promessa de encontros e desencontros em frente à tela. Quando o Correio do Povo publica, com a presteza de sempre, os horários das emissoras para uma sexta-feira de março de 2026, oferece-se mais que uma lista: oferece-se uma expectativa. Mas, como toda carta de navegação, seu valor reside na veracidade de seus traços, na solidez de suas coordenadas. E é aqui que se impõe um olhar crítico sobre a natureza dessa informação.
A ficha dos fatos é clara: ali estão os canais, os horários, a data. Contudo, uma pequena nota de rodapé, quase um sussurro em meio à profusão de títulos, carrega um peso enorme: “As informações são repassadas pelas emissoras de televisão e podem sofrer alteração sem aviso prévio”. Esta advertência, longe de ser um mero formalismo burocrático, revela a tensão entre a expectativa do público e a realidade mutável da programação televisiva. O que se apresenta como um guia fixo é, na verdade, uma projeção efêmera.
A preocupação legítima que daí decorre não é secundária. Como pode um telespectador planejar seu lazer ou seu informativos com base numa grade que, por confissão da própria fonte, pode tornar-se obsoleta em poucas horas? O que é prometido como certeza se desfaz na incerteza, gerando não apenas frustração, mas uma desconfiança sutil na autoridade da informação. A justaposição de programas nacionais e regionais, como “Balanço Geral RS” e “SBT Rio Grande”, ainda adiciona uma camada de ambiguidade sobre o alcance geográfico da grade, tornando o “mapa” menos universal e mais fragmentado para o leitor desavisado.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente com os ensinamentos de Pio XII sobre a comunicação responsável, adverte-nos sobre o perigo de tratar o povo como massa, consumindo informações passivamente, sem discernimento. Uma comunicação que se quer serviço deve zelar pela clareza e pela honestidade para com seu destinatário. Se o veículo agregador não possui o controle sobre a alteração do conteúdo, ele tem, no mínimo, o dever de comunicar essa limitação com a devida proeminência e, quando possível, oferecer mecanismos para que o público se informe sobre as mudanças. A virtude da veracidade exige que a informação pública seja um alicerce, não um terreno movediço.
Não se trata de exigir uma imutabilidade impossível, pois a dinâmica das transmissões ao vivo e das decisões de última hora é inerente ao meio. A questão, portanto, não reside na existência de mudanças, mas na ausência de mecanismos de compensação informacional para o público, ou de uma advertência que se equipare à visibilidade da grade publicada. O dever de justiça para com o leitor demanda que a conveniência de um guia não se sobreponha à sua confiabilidade. A credibilidade do veículo, o bem que se constrói ao longo de anos, é o maior patrimônio.
Um guia, seja de programação, seja de conduta, cumpre sua função quando conduz com segurança. A publicação de uma grade televisiva é um ato de comunicação, e como tal, carrega a responsabilidade de ser o mais fidedigno possível. O reconhecimento explícito da volatilidade da informação não é o fim do serviço, mas o começo de um pacto de transparência.
A verdadeira utilidade de um guia reside na solidez de suas indicações, não na ligeireza de suas ressalvas.
Fonte original: Correio do povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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