Quando a geladeira aperta no fim do mês e o tanque de gasolina parece engolir uma parte desproporcional do salário, a promessa de alívio imediato soa como um bálsamo. O governo federal, atento a essa angústia cotidiana, anunciou um pacote de medidas para conter a inflação, que nos últimos doze meses já mordeu 5,2% do poder de compra dos brasileiros. A receita apresentada inclui a redução temporária de impostos sobre combustíveis, crédito ampliado para pequenos produtores e renegociação de dívidas para famílias de baixa renda. O Ministro da Fazenda, ao apresentar a iniciativa, falou em ações “cirúrgicas” capazes de gerar um impacto de 0,8 ponto percentual na inflação nos próximos seis meses. No entanto, o que se vende como solução de bisturi afiado pode, na verdade, ser um curativo de gaze mal posta sobre uma ferida que exige sutura profunda.
A preocupação legítima que salta aos olhos não é com a intenção de aliviar o peso no bolso do cidadão – que é um imperativo de caridade e de ordem mínima –, mas com o método e suas consequências. Se a inflação é um monstro de múltiplas cabeças, combater apenas uma delas, e ainda assim de forma paliativa, arrisca alimentar as outras. A “temporariedade” da redução de impostos sobre combustíveis, por exemplo, é um termo que, no léxico político, muitas vezes se converte em permanência insustentável. O que começa como medida de emergência tende a criar um precedente perigoso, um subsídio disfarçado que desequilibra as contas públicas e onera o contribuinte silencioso do futuro. Sem uma fonte de custeio clara e permanente, a aparente “generosidade” de hoje se transforma na dívida de amanhã.
A Doutrina Social da Igreja, desde Pio XI, adverte contra a tentação da estatolatria, a idolatria do Estado que se arroga a prerrogativa de solucionar todos os males por meio de intervenções centralizadas e, muitas vezes, artificiais. A ampliação de crédito em um cenário inflacionário, sem as devidas salvaguardas e acompanhamento de políticas de produção e disciplina fiscal, pode paradoxalmente injetar mais demanda na economia, alimentando a própria espiral inflacionária que se pretende combater, ou gerar uma onda de inadimplência ainda maior. Intervir em preços específicos sem atacar as causas sistêmicas é como tentar abaixar a febre sem diagnosticar a infecção: o termômetro pode cair por um instante, mas a doença avança silenciosamente.
O cerne da questão reside, pois, na distinção tomista entre causas primeiras e causas segundas. A inflação, em sua raiz, não é um mero capricho de preços isolados, mas o sintoma de desajustes mais profundos na ordem econômica – desequilíbrios fiscais, expectativas de mercado mal ancoradas, choques de oferta globais não absorvidos por uma estrutura produtiva resiliente. Tratar o sintoma sem tocar na causa primeira é não apenas ineficaz, mas, em termos de justiça, irresponsável. Quem arca com o custo real de uma política que não funciona? O contribuinte, que vê a dívida pública aumentar; o cidadão, que sofre com a persistência dos juros altos do Banco Central, obrigado a enxugar o excesso de liquidez; e, em última instância, a credibilidade das instituições, que se vê corroída quando promessas de impacto não se concretizam.
É nesse ponto que a veracidade da comunicação pública se torna um pilar essencial. Quando o Banco Central, o guardião da moeda, sinaliza a manutenção de uma taxa Selic elevada – uma medida impopular, mas necessária para conter a inflação de fato –, ele o faz por não enxergar na superfície dos pacotes paliativos uma solução estrutural. A estimativa de 0,8 ponto percentual de impacto, divulgada pelo Ministério da Fazenda, carece de modelagem econômica transparente e de um plano de contingência para o caso de não se concretizar. O povo não é massa amorfa a ser iludida por promessas; é uma comunidade que anseia por uma gestão econômica que demonstre honestidade intelectual e que não sacrifique o futuro no altar da conveniência eleitoral presente.
A verdadeira política social e econômica, informada pela Doutrina Social da Igreja, busca não apenas a distribuição de auxílios, mas a promoção da justiça estrutural. Isso implica fortalecer os corpos intermediários da sociedade, estimular a propriedade difusa, garantir o salário justo e, acima de tudo, zelar pela solidez das contas públicas – o “bem comum” dos nossos pais e filhos. Medidas que não se coordenam com a política monetária, que não enfrentam o ajuste fiscal necessário e que geram incertezas sobre a sustentabilidade da dívida pública, podem até trazer um breve suspiro, mas não constroem o alicerce firme de uma economia sadia.
Não basta remendar o tecido da economia; é preciso tecê-lo com os fios da verdade e da responsabilidade fiscal.
Fonte original: Reuters Brasil
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.