A cada 2 de abril, a sociedade se veste de azul para “conscientizar” sobre o autismo. Uma iniciativa global, nascida na Assembleia Geral das Nações Unidas em 2007 e abraçada por legislações como a brasileira Lei nº 12.764/2012, que busca dar visibilidade e assegurar direitos a milhões de pessoas. No Brasil, o Censo de 2022 do IBGE identificou 2,4 milhões de indivíduos no espectro, um número que nos interpela. Mas o que se esconde sob essa superfície de boa intenção? Seria a mera informação suficiente, ou corremos o risco de reduzir a riqueza da diferença humana a um problema a ser gerenciado, perdendo de vista a pessoa em sua singularidade irredutível?
Os fatos são claros: o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta comunicação, interação social e comportamentos, manifestando-se de formas diversas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) corretamente afirma que não é doença, nem tem cura, mas uma condição que acompanha o indivíduo pela vida. Contudo, a mesma descrição o elenca entre os “10 principais problemas cerebrais responsáveis por perda de saúde no mundo”, e as campanhas, embora bem-intencionadas, com lemas como “Autismo e Humanidade: toda vida tem valor” e “Autonomia se constrói com apoio”, frequentemente orbitam uma linguagem que, mesmo ao incluir, acaba por sublinhar a condição como um déficit, uma lacuna a ser preenchida.
Há, de fato, uma preocupação legítima na antítese a essa abordagem. A ênfase na “identificação precoce” e nas “intervenções eficazes” pode, inadvertidamente, levar à patologização de comportamentos que são apenas variações da neurodiversidade humana. O viés de gênero na prevalência diagnóstica, por exemplo – 1,5% entre homens contra 0,9% entre mulheres no Brasil – não apenas aponta para uma falha na compreensão e nos critérios de identificação, mas escancara a subrepresentação e, consequentemente, o subdiagnóstico de mulheres e pessoas não-binárias no espectro, privando-as do suporte adequado. A “conscientização” torna-se superficial se não se traduz em mudanças estruturais e atitudinais profundas que garantam autonomia genuína e o respeito à individualidade.
É aqui que a justiça se torna a virtude primordial. Não basta apenas garantir acesso legal a serviços – o SUS oferece um leque de pontos de atenção, mas a disparidade na qualidade e acessibilidade desses serviços, especialmente em regiões menos desenvolvidas ou para famílias de baixa renda, é um problema moral real. Pio XII, ao diferenciar “povo” de “massa”, ensina que a dignidade da pessoa se afirma na sua capacidade de ser sujeito livre e responsável, e não objeto passivo de políticas gerais. Um autista, independentemente do nível de suporte, não é uma massa indistinta a ser “gerenciada”, mas um povo de singularidades a ser integrado em sua plenitude.
A retidão da veracidade nos impõe a tarefa de examinar a linguagem que empregamos. Se toda vida tem valor, esse valor não pode ser condicionado pela ausência de um “problema cerebral”. G.K. Chesterton, em seu paradoxo habitual, diria que é na sanidade de aceitar a variedade da criação que encontramos a verdadeira ordem, e não na loucura lógica de tentar encaixar cada existência em um modelo idealizado de “normalidade”. A atenção às “crises” (meltdowns e shutdowns) deve ser acompanhada de uma adaptação dos ambientes, dos estímulos sensoriais e das expectativas sociais, e não apenas de uma gestão do comportamento individual, que desvia o foco das causas sistêmicas.
Assim, o verdadeiro apoio à autonomia se constrói com algo mais do que informativos e campanhas azuis. Exige-se a implantação de conselhos escola-família-comunidade que deem voz aos autistas e suas famílias, transparência curricular nas instituições de ensino para abordar a neurodiversidade, e a promoção de corpos intermediários que criem redes de suporte mais próximas e orgânicas. A cidade, como sala de aula cívica, deve adaptar sua arquitetura, seus ruídos, seus tempos e seus ritos, tornando-se um espaço onde a diferença não é tolerada, mas integrada e valorizada. É preciso ir além da mera visibilidade para a efetiva habitabilidade.
Uma sociedade verdadeiramente justa não busca apenas “conscientizar” sobre os que são diferentes, mas edifica, paciente e caridosamente, ambientes onde cada singularidade possa brilhar em sua plenitude, contribuindo para a beleza de uma catedral erguida por mãos e mentes diversas.
Fonte original: O Alto Acre
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.