O edifício da governança global, erguido sobre os escombros de guerras passadas e as promessas de uma paz duradoura, exibe hoje fissuras profundas, um atestado incômodo de sua insuficiência. A voz que se ergue em Bogotá, criticando a paralisia do Conselho de Segurança da ONU e clamando por um maior protagonismo do “Sul Global”, ecoa uma indignação legítima. Ninguém pode ignorar, sem culpa, o escândalo de bilhões gastos em conflitos enquanto milhões padecem de fome. O apelo por maior representatividade nas estruturas de poder global é um eco da justiça, que não admite a perpetuação de arranjos que já não correspondem à realidade dos povos.
Há uma profunda e justa preocupação com a ineficácia das instituições multilaterais diante das crises contemporâneas. A incapacidade de deter massacres em Gaza, a persistência da fome em vastas regiões do planeta, a fragilidade econômica de nações inteiras sob o jugo da dívida e da exploração histórica são feridas abertas no corpo da humanidade. O clamor por uma ordem internacional que respeite a soberania e promova a dignidade da pessoa humana é, em si, um imperativo moral. A contestação a intervenções unilaterais e a sanções que flagelam populações inocentes, à margem do direito internacional, encontra amparo na doutrina que defende a paz e a justiça entre as nações.
Contudo, a retórica que simplifica o mundo em um binário de “Sul Global” contra “grandes potências” corre o risco de substituir uma abstração por outra, igualmente perigosa. São Tomás de Aquino nos ensina que o bem da sociedade depende da ordem e da virtude de seus componentes. Pio XII, em sua lúcida distinção entre “povo” e “massa”, já advertia que a massificação – seja ela econômica, política ou ideológica – dissolve os laços orgânicos, a responsabilidade pessoal e a liberdade. O conceito de “Sul Global”, quando desprovido de uma unidade de propósitos e valores concretos, pode tornar-se uma “massa” retórica, uma abstração sem alma, facilmente manipulável por interesses particulares ou por potências regionais que reproduzem, em menor escala, as mesmas assimetrias de poder criticadas. A veracidade impõe reconhecer as profundas divisões internas, os conflitos de interesse e as vastas diferenças em sistemas de governança e compromisso com direitos humanos que permeiam essa vasta e heterogênea “região”.
A verdadeira reforma não se dá apenas na redistribuição de cadeiras em conselhos, mas na edificação de Estados fundados na justiça e na honestidade. A lei natural exige que a paz e a cooperação brotem de uma base moral sólida, não de meros rearranjos geopolíticos superficiais. Como criticar a paralisia do Conselho de Segurança da ONU se os próprios membros do bloco que almeja maior protagonismo não conseguem resolver suas próprias tensões regionais, garantir os direitos humanos de suas populações ou construir consensos que vão além do discurso contra um inimigo comum? A luta contra a fome, a mudança do clima e a inclusão digital são causas justas, mas demandam mais que declarações ambiciosas; exigem laboriosidade, responsabilidade e um compromisso real com a subsidiariedade, fortalecendo as comunidades e as nações em suas bases, e não apenas transferindo o poder de um centro para outro.
A história da escravidão, evocada com justa indignação, é uma mancha indelével na humanidade e exige um reconhecimento pleno e ações reparatórias concretas, que se traduzam em desenvolvimento integral e dignidade para as populações afetadas. O Brasil, que se viu livre da fome e que agora, segundo o discurso, a combate novamente, testemunha que as conquistas sociais são frágeis quando não enraizadas em uma cultura de responsabilidade permanente e de uma ordem econômica justa. A dignidade da pessoa humana não se resolve com a retórica de um bloco contra outro, mas com a paciente e contínua edificação de uma vida comum que se baseie em virtudes cardeais.
Para além do barulho das ideologias e dos lamentos justos, o que se impõe é a reconstrução do multilateralismo sobre alicerces de verdade e de justiça, não de conveniência ou de meras trocas de poder. Uma ordem global que seja efetivamente mais justa e pacífica não nascerá de uma mera inversão de polaridades, mas da adesão de todos os povos – sejam eles do “Norte” ou do “Sul” – aos princípios da lei natural, da solidariedade concreta e da subsidiariedade. Não basta desejar a paz; é preciso semear a justiça onde ela realmente falta, e a veracidade onde a hipocrisia se instalou.
A verdadeira ordem mundial não será um desenho imposto de cima, mas uma tessitura de virtudes, tecida paciente e verdadeiramente de baixo para cima.
Fonte original: GGN
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.