A edificação de uma cidade, seja ela material ou moral, exige mais do que a pressa das mãos; exige a paciência dos engenheiros e a solidez dos alicerces. O governador Mateus Simões, ao assumir a liderança de Minas Gerais, promete uma gestão próxima do povo, atenta às necessidades urgentes de saúde, segurança e infraestrutura. Sua experiência como Secretário-Geral e o rol de conquistas da gestão anterior – da universalização do Samu à melhoria do Ideb – testemunham uma ambição louvável em resolver problemas concretos que afligem a população. A disposição de levar o governo para as regionais, ouvindo de perto a Dona Terezinha e o Seu José Donizete, é, em princípio, um gesto de atenção que a boa governança requer.
Contudo, o método pelo qual se propõe alcançar tais fins revela uma tensão profunda, que o Polemista Católico não pode ignorar. Quando o discurso do poder executivo sistematicamente desqualifica a “burocracia”, os “órgãos de controle” e as “discussões menores” como meros entraves “políticos e ideológicos”, arrisca-se a corroer os pilares que sustentam a própria arquitetura cívica. O que é pintado como celeridade e pragmatismo pode, na verdade, ser um atalho perigoso que compromete a justiça e a estabilidade das instituições.
A Doutrina Social da Igreja, desde Pio XI, adverte contra a tentação da estatolatria, que diviniza o Estado e seus líderes, atribuindo-lhes uma autoridade ilimitada. O respeito à subsidiariedade não se limita à descentralização geográfica, mas exige o reconhecimento da função própria de cada corpo social e institucional, incluindo os poderes de controle e deliberação técnica. Reduzir as instâncias de avaliação e fiscalização a adversários da “pressa de Minas” é desvalorizar o trabalho de servidores públicos e especialistas, cuja missão é zelar pela legalidade, pela transparência e pela equidade, garantindo que as decisões não sirvam a interesses particulares, mas ao bem da cidade.
É legítimo combater a burocracia ineficiente e a paralisia decisória. Mas a solução para a ponte do Rio Grande ou para os impasses do Rodoanel não pode ser a de minar a credibilidade dos arranjos federativos ou dos processos de licenciamento ambiental. Problemas complexos exigem soluções complexas, pautadas pelo juízo reto e pela humildade intelectual, não pela simplificação retórica. O apelo ao sofrimento individual da “Dona Terezinha” ou do “Seu José Donizete”, embora comovente, não pode justificar a anulação dos processos que protegem o conjunto da sociedade. Pio XII já alertava sobre a diferença entre o “povo” — que age através de suas instituições legítimas e do debate público — e a “massa” — que é manipulada por apelos emocionais e por soluções imediatistas.
Chesterton, em sua sanidade peculiar contra a loucura lógica das ideologias, denunciaria a pretensão de que a eficiência a qualquer custo possa substituir a ordem. A burocracia, em sua função ideal, não é um inimigo, mas um guardião dos ritos e das regras que asseguram a previsibilidade e a equidade do Estado. Ela é a memória viva que impede o arbítrio. Atacar essa estrutura como um mal intrínseco é uma forma de loucura que destrói as fundações em nome de uma construção apressada.
A verdadeira grandeza de um governo não se mede apenas pela velocidade das entregas, mas pela solidez dos meios. Honrar os votos recebidos implica não apenas resolver, mas resolver com justiça, transparência e respeito à ordem jurídica. A força da autoridade legítima não se afirma pela hostilidade aos freios e contrapesos, mas pela capacidade de dialogar com eles, de aprimorá-los e de construir em conjunto. A edificação de uma sociedade justa e duradoura não se dá pela demolição impaciente de suas estruturas de controle, mas pela justiça paciente que as aprimora e as dignifica. A verdadeira grandeza de Minas reside em sua capacidade de edificar, não em sua pressa de derrubar.
Fonte original: Opinião e Notícia
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.