Quando o slogan da “Glória Eterna” irrompe na tela, prometendo o início de um épico a cada sorteio da Libertadores e Sul-Americana, a voz do espetáculo, turbinada por exclamações e perguntas retóricas, toma o microfone. A transmissão ao vivo da Conmebol, em Luque, Paraguai, para definir os grupos de 2026, é vendida como o primeiro ato de um drama que se desenrolará por meses. Mas, por trás da cortina de fumaça da grandiosidade promocional, reside um abismo entre a retórica cintilante e as duras realidades que sustentam o futebol sul-americano, exigindo um juízo que discirna o legítimo entusiasmo da mera encenação.
É natural que haja expectativa, pois o esporte, em sua essência, mobiliza paixões e talentos. Contudo, a hipervalorização do “drama” e da “glória fácil” pode desviar o olhar do que Pio XII chamava de “povo” em direção à “massa” – uma audiência passiva, mais interessada no frisson do momento do que na substância das estruturas. O sorteio, por mais que defina caminhos, é um mero passo administrativo. A “glória” verdadeira, se é que se pode usar termo tão elevado para uma competição esportiva, é forjada no suor cotidiano, na gestão competente, na superação das adversidades e, sobretudo, na justiça que garante um campo de jogo minimamente equitativo.
Aqui, o dilema se torna nítido. A estrutura do futebol sul-americano é marcada por uma profunda assimetria de recursos. Para os grandes clubes, o sorteio é um prelúdio para mais um ano de farta receita e holofotes. Para os menores, porém, a participação pode ser um fardo logístico e financeiro excruciante, uma aposta desesperada num futuro incerto. A linguagem promocional, ao reduzir a experiência da competição ao binômio “glória versus grupo da morte”, obscurece as complexidades inerentes à sustentabilidade desses times e à dignidade do esforço que os levou até ali. A justiça social, princípio caro à Doutrina Social da Igreja, nos impeliria a questionar não apenas a distribuição dos potes, mas também o apoio concreto aos clubes de menor porte, para que a busca por um sonho não se converta em ruína econômica.
A responsabilidade da mídia e dos organizadores, nesse contexto, vai além da simples transmissão. É preciso temperar a hipérbole com veracidade. Quais são os critérios objetivos que garantem a integridade do sorteio, e como eles são comunicados para dissipar o ceticismo legítimo? Como a cobertura da “Voz do Esporte” planeja complementar o drama televisivo com análises que considerem as realidades financeiras e táticas, além do mero engajamento? A ênfase esmagadora no espetáculo não desvia a atenção da necessidade de reformas mais profundas na governança e na distribuição de receitas, garantindo que o futebol, como atividade social e cultural, não se torne um mero palco para poucos e um fardo para a maioria?
A insistência na “glória eterna” a partir de um sorteio, tal como Chesterton faria notar, é uma dessas loucuras lógicas que brotam da ideologia do espetáculo. Confunde o meio com o fim, o anúncio com a concretização. A sanidade nos recorda que o verdadeiro valor não reside na pompa do evento inaugural, mas na resiliência, na honestidade do trabalho e na capacidade de edificar estruturas que permitam o florescimento de todos os envolvidos, não apenas dos eleitos para o pódio. Sem isso, a “glória” proclamada será apenas um eco vazio, incapaz de ressoar nos corações daqueles que conhecem a amarga realidade dos bastidores.
O sorteio, sim, marca o início de uma jornada. Mas que não se venda a ilusão de que a eternidade começa ali. O verdadeiro desafio é construir uma competição que honre a laboriosidade de cada clube, que preze pela veracidade em sua comunicação e que persiga a justiça na distribuição de seus encargos e benefícios. Só assim o futebol sul-americano poderá almejar algo que transcenda a efêmera glória televisiva e se enraíze na real edificação de um esporte digno.
Fonte original: R7
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.