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Glória no COB: O Custo da Ostentação e a Base Esportiva

O Hall da Fama do COB celebra ídolos em evento suntuoso. Mas o artigo questiona a prioridade da ostentação diante da precariedade do esporte base e falta de transparência.

🟢 Análise

No salão dourado do Copacabana Palace, onde o cristal tilinta e os holofotes se demoram sobre glórias consagradas, o Comitê Olímpico do Brasil celebrou seu Hall da Fama 2026. A noite de 8 de abril, vibrante de discursos elogiosos e sorrisos fotogênicos, celebrou nomes que, com suor e sacrifício, gravaram seus feitos na memória esportiva nacional: os velejadores Alex Welter e Lars Björkström, a dupla do vôlei de praia Ricardo Santos e Emanuel Rêgo, e o ícone imortal do basquete, Oscar Schmidt. A retórica oficial ressoava com palavras como “alegria”, “amor” e “inspiração”, e o Ministro do Esporte fez questão de pontuar a “recriação” de sua pasta pelo governo empossado, sinalizando um tempo de renovação.

Não se pode, em sã consciência, negar o valor intrínseco de reconhecer a excelência. Há uma justiça devida àqueles que, com esforço hercúleo e disciplina férrea, honram sua pátria e elevam o espírito humano através da arte do esporte. A admiração por um Oscar Schmidt, cuja determinação era visível até nos olhos, ou a gratidão por um Vanderlei Cordeiro de Lima, que entregou a honraria a seus pares, são sentimentos legítimos e necessários para inspirar as futuras gerações. O reconhecimento do legado é uma forma de cultivar a memória, esse húmus de onde brotam novas aspirações.

Entretanto, a luz ofuscante dos holofotes e o brilho do ouro podem, por vezes, lançar sombras sobre uma realidade menos glamorosa, mas igualmente vital. Enquanto a elite esportiva se reúne em banquetes suntuosos, a base do esporte brasileiro luta por migalhas. A questão, neste caso, não é se devemos celebrar nossos heróis, mas *como* e *a que custo* essa celebração é feita. É justo que um evento de tamanha ostentação seja prioridade, em um país onde milhares de jovens talentos carecem de infraestrutura básica, de treinadores qualificados e de programas de apoio contínuo?

A Doutrina Social da Igreja, com sua insistência na justiça social e na subsidiariedade, convida-nos a olhar para além do topo da pirâmide. O esporte, em sua essência, não é apenas um espetáculo de ídolos, mas um caminho de formação humana, que exige investimentos na base, no pequeno, naquilo que não gera manchetes imediatas. A crítica de Pio XI à estatolatria, à absorção pelo Estado de funções que deveriam ser exercidas por corpos intermediários e pela sociedade civil, ressoa na menção explícita da presença governamental como “primeiro encontro após a posse”. O esporte corre o risco de ser instrumentalizado, transformado em palanque para endossos políticos, quando deveria ser um campo de autonomia e desenvolvimento integral.

A transparência, virtude que acompanha a justiça, é aqui uma exigência elementar. Qual é o custo detalhado de tal cerimônia? Como esse montante se compara aos investimentos em programas de desenvolvimento para modalidades menos visíveis ou em regiões com infraestrutura precária? Se o objetivo é inspirar a nação, por que o evento se mantém restrito a um público exclusivo, perpetuando um caráter elitista que impede a verdadeira apropriação popular da celebração? A loucura lógica de certas prioridades se manifesta justamente aqui: investir grandiosamente na imagem enquanto a substância murcha nas entranhas do sistema. Um atleta não surge de um tapete vermelho, mas de anos de treino em pistas poeirentas ou quadras esquecidas.

Não basta colecionar glórias no alto da árvore se as raízes não recebem a água e o nutriente. A verdadeira magnanimidade do esporte brasileiro estaria em equilibrar a honra merecida aos seus titãs com a responsabilidade inadiável de cultivar o solo onde os futuros campeões ainda sonham em germinar. A inspiração é vital, mas ela precisa de um terreno fértil para florescer em oportunidades concretas.

Assim, que a consagração dos grandes nomes não seja apenas um espelho que reflete o brilho do passado, mas uma bússola que aponta para as necessidades do futuro. O verdadeiro legado de Oscar Schmidt, Alex Welter, Lars Björkström, Ricardo Santos e Emanuel Rêgo não é apenas suas medalhas, mas a semente de grandeza que eles plantaram. É dever do Comitê Olímpico do Brasil e do Ministério do Esporte assegurar que essa semente encontre, em todos os cantos do país, a umidade da justiça e a luz da oportunidade.

Fonte original: Esporte

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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