A diplomacia, por sua natureza, lida com a tessitura de interesses complexos, com a paciência exigida pela história e com a dura realidade de que nem tudo se dobra à vontade de uma potência. Contudo, em certos momentos, a megalomania se veste de pragmatismo e a engenharia social de ingenuidade política, culminando em uma estratégia que não só subestima a complexidade do outro, mas compromete a própria integridade do agente. É o que parece ocorrer na Casa Branca, com sua percepção de Mohammad Bagher Ghalibaf como um “interlocutor promissor” no Irã, uma crença que se assemelha mais a um desejo infundado do que a um cálculo político maduro.
Os fatos são claros: Ghalibaf, um militar de carreira, veterano da Guerra Irã-Iraque, comandante da Força Aeroespacial da Guarda Revolucionária e nomeado diretamente pelo Aiatolá Ali Khamenei, é uma figura profundamente integrada ao sistema teocrático iraniano. Ele não é um agente livre, um “candidato” a ser avaliado e “instalado” como um fantoche. A analogia à situação de Delcy Rodríguez na Venezuela, mencionada anonimamente por fontes da Casa Branca, revela uma perigosa simplificação. O Irã, com sua estrutura de poder entrelaçada de liderança religiosa, Parlamento e uma Guarda Revolucionária com profundas raízes na sociedade e no estado, não é uma nação onde se pode simplesmente escolher e projetar um líder do exterior para garantir “um bom acordo prioritário para o petróleo”. Tal visão desrespeita a soberania de um povo e a complexidade de suas instituições, por mais imperfeitas que sejam à luz de um ideal democrático.
A instrumentalização da política externa para fins domésticos, como o temor de aumento dos preços do petróleo e o impacto nas eleições legislativas americanas, expõe a fragilidade dessa abordagem. A pausa de cinco dias nos ataques a alvos energéticos iranianos, anunciada unilateralmente por Donald Trump, é desmentida categoricamente por Ghalibaf, que a classifica como “notícias falsas para manipular os mercados”. Essa contradição pública não apenas mina a credibilidade da comunicação diplomática, mas também força Ghalibaf a uma postura de defesa, rigidificando sua posição e dificultando qualquer diálogo genuíno. A publicidade em torno da ideia de que ele seria um “escolhido” americano só o deslegitimaria internamente, empurrando-o para a radicalização para preservar sua base e sua lealdade ao regime.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII e Pio XI, tem alertado contra o desrespeito à liberdade ordenada das nações e a instrumentalização da dignidade humana e dos povos. A “realeza social de Cristo” implica que a ordem moral e a justiça devem prevalecer não só dentro dos países, mas nas relações entre eles. A busca por um “acordo prioritário para o petróleo”, travestida de preocupação com a estabilidade, quando se sobrepõe ao respeito pela autodeterminação e pela veracidade das intenções, degenera em uma política utilitarista. Isso não constrói a paz social nem uma coexistência digna, mas semeia desconfiança e instabilidade regional, ao subestimar a resiliência e a identidade de um regime que, mesmo autoritário, tem sua própria lógica interna.
A verdadeira diplomacia, fundamentada na justiça e na veracidade, não pode se dar em um palco de sombras com vazamentos anônimos e negações públicas. Exige reconhecimento da realidade do outro, por mais adversa que seja, e uma postura de honestidade sobre as próprias intenções e capacidades. Ignorar o histórico de Ghalibaf na Guarda Revolucionária e sua lealdade ao Aiatolá Khamenei é uma cegueira voluntária que pode ter custos elevadíssimos. A crença de que se pode remodelar o cenário político de uma nação complexa por conveniência, sem considerar as profundas raízes históricas, culturais e ideológicas, é uma ilusão perigosa.
A estabilidade regional e a paz global exigem mais do que a busca por vantagens comerciais de curto prazo ou a engenharia de lideranças. Exigem um respeito à ordem justa e à liberdade dos povos, mesmo que seus sistemas políticos não se alinhem aos ideais ocidentais. Subestimar a complexidade de um país como o Irã é um erro que não apenas falha em seus objetivos imediatos, mas compromete a autoridade moral e a eficácia de longo prazo da política externa. O mundo não é um tabuleiro de xadrez onde as peças se movem apenas pela mão de um único jogador.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.