O que de mais sedutor pode haver para a imaginação contemporânea do que o ímpeto da inovação, a promessa da tecnologia, o aceno de um futuro vibrante e promissor? Com um brilho que captura olhares e corações, a Prefeitura do Rio e a Fundação Roberto Marinho desvelam o Ginásio Educacional Tecnológico Audiovisual, o GET Audiovisual, na Escola Municipal Camilo Castelo Branco. Ali, onde antes se esperava a singeleza do saber elementar, ergue-se agora um polo de excelência, com estúdios de gravação, salas de controle e espaços makers que emanam a aura de um novo tempo, preparando, segundo seus mentores, os futuros profissionais de uma indústria em expansão. É, na superfície, um espetáculo de progresso.
Mas o católico, que aprendeu com São Tomás a amar a verdade e a perscrutar a realidade para além da superfície, e com Chesterton a desconfiar do progresso que esquece suas fundações, não se deixa encantar apenas pelo brilho do novíssimo. É preciso perguntar: este “CIEP do século XXI” — uma comparação que, por si só, já evoca tanto a ambição quanto as fragilidades de grandes projetos educacionais passados — serve verdadeiramente ao bem comum, ou se dobra a interesses mais restritos? A inovação, virtude em si, quando mal aplicada, pode desviar a rota, como um farol que, em vez de guiar a todos, ilumina apenas uma pequena baía.
A preocupação legítima emerge quando se examina a prioridade de um investimento tão vultoso e especializado. Enquanto a retórica oficial celebra a formação de talentos para o aquecido setor audiovisual, o Polemista Católico questiona: não estariam os recursos e a energia da Secretaria Municipal de Educação sendo canalizados para um nicho, enquanto a base da pirâmide educacional clama por mais e melhores professores de português, matemática, história e ciências fundamentais? A educação integral, conforme a dignidade da pessoa humana, não é formar apenas um técnico habilidoso para uma indústria específica, mas um cidadão capaz de pensar, discernir, amar a verdade e contribuir para a sociedade em toda a sua amplitude. Reduzir o homem a um “profissional” para o “mercado” é desvirtuar a finalidade da educação.
E que dizer da parceria com uma fundação umbilicalmente ligada a um grande conglomerado de mídia? É louvável que a iniciativa privada colabore com a esfera pública, mas a caridade na verdade exige prudência e transparência. A autonomia pedagógica, pedra angular da reta razão na educação, não pode ser refém, ainda que involuntariamente, dos interesses setoriais ou do pipeline de talentos de grandes grupos econômicos. A educação pública deve ser um berço de pensamento crítico e independente, não uma incubadora para as demandas de uma única indústria. A subsidiariedade, que valoriza a ação das esferas menores, não anula a responsabilidade da autoridade legítima de garantir que o ensino seja plural e desinteressado.
A questão da equidade e da solidariedade também se impõe com força inegável. A escola “inovadora” surge no Jardim Botânico, região de maior poder aquisitivo da cidade. Onde está o plano concreto para estender tal “excelência” às favelas e periferias que, não por acaso, concentram as maiores carências educacionais? A Doutrina Social da Igreja adverte que o verdadeiro desenvolvimento não pode criar ilhas de prosperidade em oceanos de miséria ou de oportunidades desiguais. A concentração de recursos de ponta em um único ponto privilegiado, sem um roteiro claro de democratização, é uma assimetria que afronta a solidariedade e agrava a já escandalosa desigualdade de oportunidades.
Por fim, a névoa da falta de transparência impede uma avaliação completa. O custo total do projeto, a origem detalhada dos fundos, os termos financeiros e operacionais da parceria – são lacunas que não se coadunam com a gestão prudente dos recursos públicos. Em tempos de tantos clamores por infraestrutura básica e valorização docente em toda a rede, é dever da autoridade prestar contas de forma cristalina sobre as escolhas de prioridade. A gestão da coisa pública exige que cada centavo e cada decisão pedagógica sejam transparentes, pois a confiança é a base de uma comunidade justa.
Não se trata de negar a tecnologia ou o avanço, mas de julgar sua aplicação à luz da reta razão e dos princípios imutáveis. Uma educação que se especializa excessivamente sem antes solidificar as bases, que se alia a interesses particulares sem salvaguardar a autonomia pedagógica, e que concentra a inovação em detrimento da equidade, corre o risco de construir um futuro mirabolante sobre alicerces fracos. O verdadeiro progresso não é a velocidade vertiginosa com que corremos para um ponto qualquer, mas a firmeza de propósito com que avançamos em direção ao bem de todos. Porque, no fim das contas, a mais alta tecnologia é a do espírito humano formado integralmente, e o maior espetáculo não é o da tela, mas o da alma que aprende a ver a verdade.
Fonte original: Opinião e Notícia
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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