Quando a cena política global se cobre de fumaça e o clamor das guerras faz tremer o chão, a primeira vítima costuma ser a clareza do juízo. No recente cenário dos ataques militares ordenados por Donald Trump, um coro de vozes aponta para as engrenagens ocultas do capital financeiro como o verdadeiro maestro da discórdia. Mas, ao tentar desvelar essa arquitetura sombria, corremos o risco de ceder à tentação de trocar a análise séria por um sermão ideológico, misturando legítimas denúncias com a névoa tóxica da especulação não verificada.
É um fato que Donald Trump ordenou ataques militares que atingiram aliados e elevaram o preço do petróleo, e que a maioria do povo americano condenou tais ações. É igualmente perceptível que o capital financeiro opera numa escala global, desde a expansão do mercado de eurodólares nos anos 1970 e a desregulamentação das décadas seguintes, condicionando políticas públicas e muitas vezes sacrificando direitos sociais em nome da solvência e da confiança do mercado. Há uma preocupação genuína com os custos sociais da dívida pública e com a estagnação prolongada, o que alimenta a busca por alternativas financeiras em blocos como o BRICS e a Unasul. Essas são feridas abertas que exigem a aplicação da justiça e um discernimento atento aos princípios da Doutrina Social da Igreja.
Contudo, reduzir a complexidade da geopolítica a uma única lógica — a de que “a guerra imperialista é a continuação da política de financeirização por outros meios” — é um reducionismo que empobrece o debate. As decisões bélicas são fruto de uma miríade de fatores: estratégias políticas domésticas, rivalidades históricas, ambições individuais, e não apenas o mero instrumento de uma mão invisível do capital. São Tomás de Aquino nos ensina a distinguir as causas e a não confundir um possível motivo econômico subjacente com a causa eficiente e exclusiva de todas as ações. Ignorar a autonomia relativa da esfera política e a agência dos líderes é cair num determinismo que, além de ser intelectualmente pobre, desresponsabiliza os atores morais.
A gravidade da análise se esvai, de modo ainda mais acentuado, quando se misturam fatos verificados com previsões incertas e, pior, com acusações gravíssimas e absolutamente não verificadas. Mencionar “prováveis derrotas eleitorais” e “prováveis e anunciados julgamentos de Donald Trump por traição nacional, enriquecimento ilícito, pedofilia e abuso de menores” como parte integrante de uma tese econômica e geopolítica não é fazer jornalismo nem análise; é incorrer na difamação, manchando a reputação de um indivíduo com alegações que carecem de qualquer prova no contexto apresentado. A Igreja, em seu Magistério, condena veementemente a mentira e a calúnia, especialmente quando usadas para manipular a opinião pública em temas de alta voltagem política. A veracidade é a base inegociável de qualquer debate que almeje a justiça.
Ainda assim, não se pode ignorar a sombra que o capital financeiro desregulado projeta sobre a soberania dos Estados e a dignidade das pessoas. O grito por auditorias da dívida e por instituições financeiras alternativas ecoa a perene advertência da Doutrina Social da Igreja contra a primazia do capital sobre o trabalho e a mercantilização da vida. Leão XIII nos recordou que a propriedade tem uma função social, e Pio XI defendeu a subsidiariedade, a justiça social e a realeza social de Cristo contra a estatolatria e o desequilíbrio econômico. O povo, como ensinou Pio XII, não pode ser reduzido a uma massa passiva, mas deve ser capaz de um juízo moral sobre as ações de seus governantes, como se viu na condenação majoritária aos ataques.
A guerra, em si, é um flagelo que a humanidade, por séculos, tem o dever moral de evitar. O sofrimento humano, a destruição do patrimônio e a subversão da ordem são preços altos demais para serem justificados por qualquer cálculo, seja ele econômico ou estratégico, se não houver um apelo extremo e legítimo à autodefesa. O dever de governar com prudência e buscar a paz é uma obrigação moral dos Estados, e a imposição de custos por meio da força bruta, sem lastro em princípios de justiça bem fundados, é a receita para mais desordem.
O alicerce de uma ordem social justa não se ergue sobre a terra movediça da ideologia nem sobre a areia da difamação, mas sobre a rocha firme da verdade dos fatos e da perene lei moral. A verdadeira fortaleza não reside na retórica inflamada ou na violência bélica, mas na capacidade de discernir, com justiça e veracidade, as causas e os remédios para as feridas que sangram no corpo social, buscando um caminho de paz que honre a dignidade humana em todas as suas dimensões.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.