A glória arquitetônica de um estádio colossal, erguido em tempo recorde no meio do deserto, pode ofuscar o observador menos atento. A Arábia Saudita, com a promessa de sediar a Copa do Mundo de 2034 e um poderio econômico colossal — a segunda maior reserva de petróleo do planeta e o 19º maior PIB global —, projeta uma imagem de ascensão meteórica no cenário do futebol mundial. A vitória em 2022 contra a Argentina, futura campeã, é lembrada como um brilho fulgurante, um vislumbre do que o investimento massivo de um reino absolutista, guiado pelo príncipe herdeiro Mohammad bin Salman, é capaz de alcançar. O dinheiro, afinal, compra astros globais, atrai técnicos renomados e constrói infraestrutura de primeiro mundo. Mas seria esta a semente de uma potência futebolística duradoura ou apenas a flor artificial de um oásis financeiro?
A Doutrina Social da Igreja, ao falar da função social da propriedade e da justa ordenação dos bens, recorda-nos que nem todo poder econômico se traduz em bem comum se seus métodos violam a justiça e sufocam o desenvolvimento orgânico. É aqui que o brilho ofusca a realidade. O poder de atração de astros estrangeiros, como alegou o ex-treinador Roberto Mancini, não raro gera uma “perda de protagonismo” para os atletas locais, estagnando o desenvolvimento de talentos próprios. A força de uma nação no esporte não pode ser uma mera importação de excelência alheia; ela precisa de raízes fincadas em um projeto de base, de clubes que valorizem a formação e de ligas que estimulem a laboriosidade e a responsabilidade dos seus. Sem essa vitalidade interna, o edifício, por mais imponente que pareça, ergue-se sobre um terreno movediço.
As inconsistências da seleção saudita, que oscila entre vitórias isoladas e eliminações precoces — como a recente na Copa da Ásia —, somadas à rotatividade de treinadores e ao desempenho médio nas Eliminatórias, desnudam uma fragilidade estrutural. A mera injeção de capital, por mais volumosa que seja, não substitui o trabalho paciente da subsidiaridade, que valoriza e fortalece os corpos intermediários – os clubes, as academias, as comunidades – na base do futebol. Quando a Confederação Asiática designa a própria Arábia Saudita como sede de fases eliminatórias que deveriam ocorrer em campo neutro, “sem critério algum”, o que se questiona não é apenas a imparcialidade, mas a própria justiça da competição. A honestidade do esporte exige transparência e equidade, não a submissão de regulamentos à força da influência econômica.
A narrativa de uma ascensão inquestionável, inflada pela ambição de sediar um Mundial, corre o risco de se tornar um idealismo descolado do real. Um time que ostenta um único golaço memorável contra a Argentina em 2022, mas que não consegue consolidar uma performance consistente, revela que a sanidade do esporte não reside na loucura lógica de que o dinheiro tudo pode comprar. Como o próprio Chesterton, em seu paradoxo, nos alertaria: o entusiasmo pelo ordinário e o valor da coisa pequena, bem feita, muitas vezes superam a grandiosidade fabricada das ideologias. O desenvolvimento autêntico requer que a atenção e os recursos sejam canalizados não apenas para a vitrine internacional, mas para o sustento dos atletas locais, para a formação contínua e para a criação de um ambiente onde o mérito genuíno possa florescer.
O futebol, como qualquer outra esfera da vida social, pede a reta ordenação dos meios aos fins. A Arábia Saudita tem a oportunidade de usar seus vastos recursos não apenas para a projeção geopolítica, mas para construir um legado de justiça e veracidade em seu esporte. Isso significa investir em talentos locais com projetos de longo prazo, garantir a integridade das competições e fomentar uma cultura que celebre a disciplina e o esforço, e não apenas o espetáculo efêmero ou a vitória impulsionada pelo capital.
A verdadeira grandeza, contudo, nunca é uma mercadoria, nem se compra com o peso do ouro, mas floresce no solo fértil da integridade e da paciência, onde a semente da subsidiariedade e da justiça germina em virtude e trabalho autêntico, e não em meras aparências de poder.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.