O calendário, esse árbitro implacável da realidade, não se dobra a entusiasmos de ocasião nem a desejos apressados. Ainda assim, na análise de um confronto recente de futebol, vemos a curiosa ânsia de pular etapas, de declarar vitórias futuras como se já escritas estivessem, deturpando a verdade para construir uma narrativa de impacto. O campo de jogo, que deveria ser o palco da ação presente e do registro factual, transforma-se, por vezes, num quadro de projeções anacrônicas, onde o que é apenas expectativa ganha o peso de um fato consumado.
Não se pode negar a ascensão inquestionável do futebol marroquino. A semifinal alcançada na Copa do Mundo de 2022, o investimento consistente na formação de atletas e a presença de seus jogadores nas grandes ligas europeias são dados que atestam um trabalho sério e uma evolução genuína. A vitória sobre a Seleção Brasileira, em amistoso disputado em Tânger em 2023, foi um marco, encerrando um pequeno tabu de dois confrontos anteriores favoráveis ao Brasil. Esses são os fatos, a matéria prima sólida da análise. Contudo, a partir daí, a narrativa derrapa ao celebrar “conquistas” marroquinas no Mundial sub-20 de 2025 e na Copa Africana de Nações (CAN) de 2026 como se já tivessem ocorrido. Esta manipulação temporal não é apenas um deslize, mas uma perversão do juízo, um ataque à veracidade que deve informar toda comunicação pública.
Pio XII, em sua crítica à massificação e na defesa de uma comunicação responsável, nos alertava para os perigos de uma informação que se desvia de seu fim primordial: a verdade. Quando se apresenta o futuro como passado, a esperança como certeza, e a projeção como dado, mina-se a capacidade do “povo” de discernir, de julgar com reta razão. A dignidade da pessoa humana, enquanto ser racional, exige que a ela seja oferecida a realidade, com suas incertezas e seus desafios, não uma ficção conveniente. A ordem moral pública depende dessa honestidade intelectual, que impede que o espaço do debate seja preenchido por fantasmas de eventos ainda não nascidos.
A tentação de transformar um amistoso, por mais simbólico que seja, em um divisor de águas definitivo para a hierarquia do futebol mundial é igualmente problemática. A derrota brasileira de 2023 ocorreu em um contexto específico: uma equipe em transição após a saída do técnico Tite, sob o comando interino de Ramon Menezes, com desfalques e erros notáveis de posicionamento. Embora toda derrota exija reflexão, e a vitória marroquina deva ser reconhecida como um mérito, desproporcional é elevá-la ao patamar de um “fracasso” brasileiro que redefiniria décadas de história do futebol com base em apenas três confrontos diretos. Há aqui uma carência de humildade intelectual, que se precipita em sentenças grandiloquentes onde seria necessária a paciência da observação contextualizada.
É nesse ponto que se percebe uma forma de loucura lógica, aquela que Chesterton tão bem identificava: a sanidade de ver o mundo como ele é, em sua contingência e sua complexidade, é trocada pela rigidez de uma tese que, para se sustentar, precisa inventar dados. O desejo de um “protagonismo incômodo” para Marrocos — uma aspiração legítima de qualquer nação — não pode ser construído sobre a areia movediça de eventos futuros imaginados. A glória de uma ascensão real não precisa de atalhos para se afirmar; ela se basta em sua própria história.
A reconstrução moral e cultural, que se almeja em toda sociedade justa, exige, antes de tudo, o compromisso com a veracidade. Seja na educação dos jovens, na gestão pública ou na análise do esporte, a comunicação bela e verdadeira deve prevalecer. O respeito ao jogo limpo estende-se para fora das quatro linhas, exigindo que a narrativa sobre ele seja justa, honesta e ancorada no real. Marrocos, com seu percurso recente, já conquistou o direito a ser reconhecido como um adversário forte e um protagonista emergente no futebol global. Mas esse reconhecimento deve vir do suor presente em campo, não da tinta que preenche um calendário ainda por vir.
No grande jogo da vida pública, seja no esporte ou na política, a única vitória duradoura é aquela construída sobre a firme rocha dos fatos, não sobre a miragem de um futuro fabricado.
Fonte original: ND
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.