O futebol brasileiro, pródigo em lendas e paixões, parece também alimentar uma estranha superstição: a da “maldição” que se abate sobre técnicos recém-saídos da Seleção Nacional. A recente demissão de Dorival Júnior do Corinthians, após “quase um ano” de trabalho e dois títulos conquistados (Copa do Brasil em 2025 e Supercopa do Brasil em 2026), mas encerrada com nove jogos sem vencer, é apresentada como a mais nova evidência dessa sina. Contudo, sob o manto dessa narrativa sedutora, reside um vício bem mais terreno e insidioso: a impaciência crônica e a miopia para os fatos que distorcem a realidade da laboriosidade e da responsabilidade.
A busca por um padrão de insucesso em profissionais que serviram a Seleção Brasileira, embora reconheça a legítima pressão do cargo, desconsidera as nuances e os êxitos que pontuam essas carreiras. O caso de Felipão é um contra-exemplo irrefutável. Após conduzir o Brasil ao pentacampeonato mundial em 2002, ele assumiu a seleção de Portugal no ano seguinte, levando-a a um inédito vice-campeonato na Eurocopa de 2004 e às semifinais da Copa de 2006, permanecendo no cargo até 2008. Esse período de estabilidade e conquistas internacionais desmonta a tese de um fracasso inevitável. Da mesma forma, Emerson Leão, após sua breve passagem pela Seleção em 2001, salvou o Juventude do rebaixamento, em um feito que, embora sem taça, foi um sucesso contextual inegável.
A insistência em uma “maldição” revela a dificuldade em aplicar a veracidade na avaliação do trabalho. Como conciliar a conquista de dois títulos por Dorival Júnior em “quase um ano” no Corinthians com sua demissão sumária após uma sequência de nove jogos sem vitória? O contraste aponta menos para uma falha inerente ao técnico com passado na Seleção e mais para a volatilidade e o imediatismo que há muito corroem a ordem de nosso futebol. A alta rotatividade de treinadores é um problema estrutural que afeta a todos, consagrados ou não, e não pode ser imputada a uma mística de insucesso pós-Seleção.
São Tomás de Aquino nos ensina a distinguir as causas e ordenar os bens. A demissão de um profissional não é mero resultado de uma “maldição”, mas de um complexo de fatores onde a falta de temperança — a virtude que modera a busca por resultados imediatos e a paixão desordenada por vitórias — desempenha um papel central. Pio XII, ao diferenciar “povo” de “massa”, advertia sobre a comunicação irresponsável que reduz a complexidade a narrativas simplistas e manipula a opinião pública. A mídia, ao perpetuar a lenda da “maldição”, fomenta essa cultura de massa que impede a avaliação justa e a continuidade institucional, tão necessárias para a solidez de qualquer projeto. A sanidade, como diria Chesterton, reside em observar os fatos concretos, e não em render-se à loucura lógica das generalizações convenientes.
O verdadeiro desafio, portanto, não é desvendar uma “maldição” impalpável, mas restaurar a ordem moral pública no esporte. Isso exige das diretorias honestidade na análise, dos torcedores uma dose de paciência e da imprensa a veracidade na comunicação, que se recuse a reduzir a complexidade da laboriosidade humana a um espetáculo de ciclos de euforia e condenação. Reconhecer o mérito do trabalho, mesmo em fases de adversidade, e resistir ao frenesi de uma cultura que exige o título imediato sob pena de excomunhão, é o caminho para uma avaliação justa.
A verdadeira enfermidade do futebol brasileiro não reside em supostas maldições que pairam sobre talentos reconhecidos, mas na febre da impaciência e na cegueira para os fatos concretos. Julgar o mérito da laboriosidade humana exige mais que a contagem apressada de vitórias e derrotas; exige a veracidade que reconhece o trabalho e a temperança que aguarda os frutos.
Fonte original: ESPN.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.