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Futebol Feminino: Visibilidade, Estrutura e Subsidiariedade

Futebol feminino ganha visibilidade com Copa 2027. Para sua solidez e justiça, o artigo defende uma estrutura pautada na subsidiariedade, com clubes fortes e investimento privado.

🟢 Análise

O clamor por justiça no futebol feminino, silenciado por décadas de proibição, ecoa hoje nos estádios e gabinetes, legitimado pela história e impulsionado por heroínas como Formiga. É uma demanda por reparação, sim, e um reconhecimento devido à dignidade da mulher que rompeu barreiras não por privilégio, mas por força e talento. A visibilidade que se constrói, com a mídia pública engajada em levar a bola para regiões distantes e a promessa de uma Copa do Mundo em solo brasileiro, é um passo fundamental. Contudo, em meio a essa legítima celebração, urge questionar se os alicerces que se erguem para o futuro do esporte são suficientemente sólidos ou se corremos o risco de montar uma bela fachada, desprovida de sustentação duradoura.

A Igreja, através de sua Doutrina Social, sempre defendeu que a ordem social é construída sobre o princípio da subsidiariedade. Isso significa que o Estado, embora tenha um papel legítimo em promover o bem comum e corrigir injustiças históricas, não deve esmagar ou substituir a iniciativa das comunidades menores, das associações livres e das famílias. No caso do futebol feminino, a ação estatal e a visibilidade da EBC são, sem dúvida, um catalisador indispensável para superar uma inércia de mercado e um preconceito cultural enraizado que por “praticamente 40 anos” tolheu o direito das mulheres de praticar o esporte. Não é trivial que uma Formiga, que defendeu a camisa nacional por sete Copas, ainda precise atuar hoje na diretoria de políticas públicas para o esporte.

Mas a verdadeira justiça não se esgota na reparação momentânea ou no auxílio emergencial. Ela exige a construção de um ecossistema autossuficiente e vibrante, que possa florescer por mérito próprio e engajamento orgânico, sem depender de subsídios perenes ou da boa vontade de governos específicos. As palavras de Formiga, quando diz que “enquanto não tivermos estrutura, vamos avançar pouco”, apontam para essa carência fundamental. Estrutura não se resume a transmissões, por mais valiosas que sejam; ela é feita de campos, de técnicos qualificados, de ligas organizadas, de categorias de base capilares e, sobretudo, de clubes que incorporem o futebol feminino não como um peso a ser “aceito” por imposição, mas como um investimento promissor.

A preocupação legítima aqui não é ignorar o clamor por equidade, mas garantir que a solução não crie uma nova dependência, trocando a exclusão histórica por uma estatolatria velada. O papel do Estado é fomentar, criar condições para a prosperidade dos corpos intermediários – os clubes, as federações locais, as comunidades – para que estes se tornem os verdadeiros protagonistas. São Tomás de Aquino nos ensina que o bem da parte deve ser ordenado ao bem do todo, e o bem de um esporte se fortalece quando suas bases são diversas, autônomas e vivas. Se o talento de meninas como Isadora Jardim, de 14 anos, é abundante, cabe a todos – poder público, iniciativa privada e sociedade civil – garantir que esse talento encontre um caminho que não se desfaça ao sabor de cada mudança de gestão ou de prioridades orçamentárias.

A lição de sanidade contra a loucura lógica das ideologias que nos lembra Chesterton é que não se deve buscar uma solução burocrática para todo problema, especialmente quando a vitalidade de uma causa reside na espontaneidade e na colaboração livre. É preciso uma laboriosidade paciente e uma responsabilidade compartilhada para que a visibilidade gerada hoje se traduza em receitas sustentáveis, em patrocínios privados, em público fiel e em uma rede de desenvolvimento que ultrapasse a concentração em poucos centros. A mídia pública tem seu papel, sim, como Luciana Zogaib bem demonstra ao abrir caminho para narradoras, mas a sustentabilidade de um mercado depende da diversidade de parceiros e da livre atração de capital e talentos.

O futebol feminino brasileiro tem o direito de sonhar com sua Copa do Mundo em 2027 e com um futuro de glórias. Para que esse sonho se realize em plenitude, é preciso que, ao lado dos esforços governamentais, cresça uma iniciativa privada robusta, incentivada por um ambiente jurídico e econômico que não a veja como concorrente, mas como parceira essencial. A verdadeira grandeza de um esporte não se mede apenas pela quantidade de vezes que é transmitido, mas pela solidez dos fundamentos que o mantêm de pé, pela justiça intrínseca de suas estruturas e pela capacidade de inspirar e gerar valor em cada canto do país, de forma orgânica e livre.

A promessa do futebol feminino brasileiro, para florescer em solo fértil e não em estufa artificial, exige, pois, não apenas o ardor de seus defensores, mas a solidez dos alicerces de uma sociedade verdadeiramente subsidiária, que valoriza a ação local e a responsabilidade de todos na edificação da vida comum.

Fonte original: SiteBarra

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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