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Futebol Feminino: Cuiabá, FIFA Series e o Legado Genuíno

Cuiabá sedia a FIFA Series Feminina. Questiona-se o legado real do evento para o futebol feminino. Urge investir em bases sólidas, não em visibilidade pontual.

🟢 Análise

O burburinho de festa que precede um grande evento esportivo emana uma energia contagiante. Cuiabá se engalana para receber a FIFA Series de futebol feminino, com a Arena Pantanal e as autoridades locais a celebrar a estrutura pronta e o “legado” prometido. A coordenadora da CBF, Cris Gambaré, expressa satisfação, e o governador Otaviano Pivetta acena com a importância de incentivar o esporte feminino. Há uma atleta mato-grossense, Ana Vitória, feliz em jogar em casa, o que, sem dúvida, é um motivo legítimo de júbilo. Mas, no grande palco da vida pública, é preciso olhar para além da iluminação da ribalta e inquirir sobre os alicerces.

A genuína promoção do futebol feminino, como de qualquer modalidade esportiva, não se esgota no efêmero esplendor de um torneio internacional, ainda que importante. A visibilidade é um bem, a inspiração um motor, mas sem o solo fértil de um desenvolvimento contínuo e orgânico, tais frutos tendem a murchar tão rápido quanto surgem. A Doutrina Social da Igreja, ao falar da boa administração dos recursos e da subsidiariedade, convida-nos a considerar se o investimento estatal, neste caso, está alinhado com a edificação duradoura ou com a mera projeção de uma imagem que se esvai com o último apito.

A justiça, aqui, demanda uma ponderação sobre a proporcionalidade do dispêndio de recursos públicos. É lícito celebrar um evento inédito, mas é também imperioso questionar: quais os mecanismos concretos que garantirão que o “legado” não se reduza a retórica vazia? O entusiasmo pela presença de seleções de ponta não pode eclipsar a necessidade de fortalecer as raízes, as ligas estaduais, os centros de treinamento acessíveis e os programas de formação de treinadoras nas bases. É aí que a laboriosidade e a responsabilidade das entidades públicas e esportivas se fazem mais necessárias e menos midiáticas.

A experiência nos ensina que grandes arenas, construídas para megaeventos, não raro se tornam elefantes brancos, drenando recursos para manutenção sem um uso consistente e voltado ao desenvolvimento local. A Arena Pantanal, tão elogiada, terá sua utilidade contínua para o futebol feminino local após o torneio? O princípio da subsidiariedade, defendido por Pio XI, adverte contra a tentação de o Estado centralizar iniciativas que poderiam e deveriam florescer nas associações livres e nos corpos intermediários, mais próximos da realidade das comunidades.

Não se trata de negar a alegria do jogo nem a justa visibilidade que um evento como a FIFA Series pode trazer. Mas a veracidade nos obriga a perguntar qual o orçamento total investido pelo Governo de Mato Grosso e como ele se compara ao investimento anual direto em programas de base. Um Estado sábio não confunde publicidade com política pública, nem espetáculo com estrutura. A inspiração é vital, sim, mas precisa ser regada por um planejamento estratégico de longo prazo, com metas claras e auditoria de impacto, que transponham o ciclo de notícias e eleições.

O verdadeiro incentivo à participação feminina no esporte reside na persistência silenciosa, na oferta de oportunidades reais e na construção de um ecossistema que forme atletas e cidadãs, não apenas expectadoras ou figuras passageiras de um evento. A glória perene não está no flash da câmera que capta o gol, mas na semente que, lançada com cuidado e cultivada com dedicação, rende uma colheita abundante e sustenta a vida de muitas gerações. É na constância do trabalho bem feito, e não na intensidade do brilho passageiro, que se edificam o futuro e a dignidade.

Fonte original: Gazeta Digital

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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