No compasso do Mês da Mulher, o noticiário desfila imagens de triunfo, de uma Formiga que se eterniza não só em campo, mas agora nas políticas públicas, de uma Isadora Jardim que já encanta a Seleção Sub-15, e de uma Luciana Zogaib que rompe o véu de vozes masculinas no rádio. Há, sem dúvida, um justo florescer de reconhecimento e visibilidade para o futebol feminino brasileiro, um esporte que, por quase quatro décadas, foi deliberadamente calado por um regulamento que, em seu absurdo, espelhou um preconceito mais profundo. A promessa da Copa de 2027 no Brasil e a prioridade de exibição da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) alimentam a esperança de um novo capítulo para tantas atletas, árbitras e treinadoras que, com fibra inquebrantável, insistem em seu direito de pisar no gramado.
Contudo, sob o brilho efêmero dos holofotes, a poeira da realidade teima em mostrar uma verdade mais agreste: a de um solo ainda pouco cultivado, onde o espetáculo, por vezes, eclipsa as fundações. É Formiga, ela mesma, quem atesta: “enquanto não tivermos estrutura, vamos avançar pouco.” Essa declaração, vinda de uma lenda que disputou sete Copas e coleciona medalhas, não é um lamento, mas um diagnóstico preciso. Afinal, em um país da dimensão e da paixão futebolística do Brasil, 360 jogadoras profissionais e apenas 17 árbitras registradas em 2022 não revelam um avanço substancial, mas uma persistência da margem. É o paradoxo moderno: celebramos a “superação” individual como heroísmo, mas negligenciamos a construção da plataforma que tornaria esse heroísmo menos custoso e mais universal.
A dignidade da pessoa humana não se esgota na liberdade de existir, mas clama pela liberdade de florescer em todas as suas potencialidades. A escassez de oportunidades, a concentração de talentos e investimentos no eixo São Paulo, e a carência de equipes de base em quase todo o país constituem uma forma de injustiça estrutural. Não basta que uma menina como Isadora Jardim, aos 14 anos, tenha de se mudar de estado para encontrar um clube que a acolha; é preciso que a oportunidade esteja ao alcance de todas, em cada canto do Brasil. A mera visibilidade midiática, sem um investimento concomitante na base, assemelha-se a pintar uma fachada colorida sobre alicerces frágeis, um brilho de verniz sem a solidez da madeira que sustenta.
O Magistério da Igreja, em sua Doutrina Social, sempre defendeu a primazia dos corpos intermediários – das famílias às associações profissionais e esportivas – como pilares de uma sociedade justa. O Estado, por meio do Ministério do Esporte e da CBF, tem o dever de fomentar, incentivar e regular, mas jamais de substituir ou esmagar a vitalidade dessas entidades locais. Os clubes, que são a célula-mãe do futebol, precisam assumir sua responsabilidade de modo laborioso, transcendendo o mero cumprimento de cotas regulatórias e investindo de fato na formação de equipes femininas, com estruturas adequadas, salários justos e segurança para as atletas. É um apelo à subsidiariedade: que o problema seja resolvido no nível mais próximo de quem o sente, com o apoio necessário dos níveis superiores.
A promessa de um “legado” da Copa de 2027 só se concretizará se houver um plano de longo prazo que vá muito além do evento. Um legado não se anuncia; ele se constrói com a virtude da laboriosidade e com uma firme intenção de justiça. Exige metas claras, orçamento transparente e um monitoramento que assegure a continuidade institucional e a capilaridade dos investimentos. Perguntas incômodas persistem: qual a proporção do orçamento público e privado dedicada à construção de base e infraestrutura versus a promoção de eventos de visibilidade ou equipes de elite? Como os clubes serão incentivados, e não apenas exortados, a investir seriamente no futebol feminino fora dos grandes centros? A resposta a essas questões delineará se o futuro será de um real progresso ou de mais uma celebração efêmera.
O futebol feminino no Brasil é um campo fértil, mas que exige mais do que narrativas inspiradoras; demanda ferramentas, trabalho e adubação constante. A verdadeira vitória não será apenas a conquista de títulos, mas a construção de um ambiente onde a excelência individual de uma Formiga não seja a exceção heroica, mas a expressão natural de um sistema justo e acessível para todas as meninas que, como Isadora Jardim, sonham em chutar uma bola. A justiça aqui não é apenas retributiva, mas distributiva: garantir que a oportunidade, o investimento e a dignidade alcancem cada talento, em cada canto do país, transformando o “futebol não é para mulher” em uma lembrança distante de um passado ingrato.
É preciso, portanto, que a nação, seus governos e clubes compreendam que o investimento no futebol feminino não é um favor ou uma concessão de marketing, mas um imperativo de justiça e solidariedade. A estrutura, os salários, a formação e a segurança são o alicerce material para a dignidade dessas mulheres. Que a Copa de 2027 seja, sim, uma festa de celebração, mas que seu verdadeiro legado seja a pedra fundamental de um ecossistema futebolístico feminino robusto, que não precise de heroínas isoladas para sobreviver, mas floresça pela pura força de sua própria base.
Fonte original: SiteBarra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.