O estouro do apito final, que selou os cinco gols da seleção feminina brasileira contra a Coreia do Sul, ecoou na Arena Pantanal como a promessa de um novo tempo. As redes vibraram, as manchetes “deslancharam” e a euforia, em tom “carregado” pela mídia, celebrou um espetáculo de talento e domínio. É inegável o brilho individual de Kerolin e o vigor tático da equipe de Arthur Elias, que soube aproveitar os espaços e construir uma goleada convincente. A alegria por ver talentos como Dudinha e Ary Borges em campo é legítima, e a visibilidade de torneios como o Fifa Series, por si só, é um passo para o futebol feminino. No entanto, é preciso perguntar se a intensidade dos holofotes sobre a superfície do placar não ofusca a necessidade de um olhar mais profundo sobre as raízes do esporte no país.
A Doutrina Social da Igreja nos lembra, por Pio XI, da importância da subsidiariedade e da justiça social na construção de uma ordem verdadeiramente robusta. A efervescência de uma vitória pontual, ainda que relevante para a moral da equipe e a atração de público, não pode desviar a atenção da urgente necessidade de edificar estruturas sólidas e duradouras. A euforia midiática é um capital a ser bem gerido, mas se não for traduzida em investimento contínuo nas categorias de base, em condições de trabalho dignas para as atletas e em um desenvolvimento capilar nos clubes, corre o risco de ser uma “bolha” de entusiasmo, tão rápida em inflar quanto em esvaziar.
A verdade é que a saúde de um esporte se mede menos pelos picos de euforia de jogos amistosos e mais pela qualidade do solo onde as sementes são plantadas e cultivadas. Os desafios históricos do futebol feminino brasileiro – a disparidade de investimento em relação ao masculino, a precariedade de infraestrutura, a escassez de oportunidades para jovens talentos – não são resolvidos por uma goleada isolada, por mais que ela seja um sinal promissor. A justiça exige que a celebração do talento em campo seja acompanhada por um compromisso inabalável com a construção de “corpos intermediários” fortes, capazes de sustentar o esporte em todas as suas camadas, desde a formação à alta performance, não apenas na seleção principal, mas nos campeonatos estaduais e nacionais.
Não se trata de minimizar a importância da vitória, mas de contextualizá-la com veracidade. A análise não pode se reduzir a um mero balanço de gols, mas deve se aprofundar nos indicadores de performance técnica, tática e física que realmente preparam a equipe para os desafios de elite mundial, onde a Coreia do Sul dificilmente representaria o ápice da competitividade. A magnanimidade da sociedade, que se entusiasma com a vitória, deve ser canalizada para uma demanda por responsabilidade e planejamento de longo prazo da CBF e dos clubes. Que tipo de “salário familiar” em termos de estrutura e apoio é oferecido às jogadoras? Como o “cooperativismo” entre federações, clubes e sociedade pode assegurar um futuro mais justo para essas atletas?
O perigo da “estatolatria” que Pio XI alertava, aplicada ao esporte, seria esperar que apenas a visibilidade da FIFA resolvesse os problemas que nascem na base, no dia a dia dos clubes, onde a maioria das jogadoras luta por condições mínimas. A euforia legítima deve ser o motor, e não o ponto de chegada. Ela deve impulsionar uma “guerra cultural legítima” que exija mais do que o espetáculo efêmero: exige um compromisso sério com a formação, com a transparência curricular nas academias de base, com a garantia de que as próximas Kerolins e Dudinhas tenham um caminho claro e sustentável.
A celebração dos cinco gols deve ser um convite à edificação. Que a força mostrada em campo seja um catalisador para a justiça de um esporte que precisa de fundações profundas, e não apenas de fachadas deslumbrantes. O verdadeiro triunfo não será apenas a próxima goleada, mas a garantia de um futuro onde o futebol feminino brasileiro não precise de picos de euforia para se manter vivo e digno.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.