O campo de jogo, para além das quatorze linhas e dos noventa minutos, é também um espelho da sociedade, onde as paixões se inflamam e a busca pela vitória, por vezes, turva a distinção entre fato e fantasia. A recente análise do cenário do Cruzeiro, com seus embates próximos contra o Red Bull Bragantino e o Católica, revela não apenas os desafios táticos da equipe, mas expõe, sobretudo, a fragilidade de um discurso público que, sob o manto da opinião, transgride os limites da veracidade e da justiça, especialmente ao apontar o dedo para a arbitragem.
É justo e necessário que a comunidade esportiva questione a qualidade e a consistência das decisões arbitrais. A transparência e a imparcialidade são pilares de qualquer competição digna. Mas a crítica legítima, nutrida pelo desejo de aprimoramento do esporte, difere fundamentalmente da acusação leviana e da insinuação caluniosa. Quando se nomeia árbitros consagrados pela FIFA para a Copa do Mundo – Ramon Abatti Abel, Wilton Pereira Sampaio, Raphael Claus – e se os descreve como “premiados pelo péssimo trabalho”, imputando-lhes favorecimentos a clubes ou mesmo a responsabilidade pela eliminação de seleções em mundiais, sem o apoio de evidências concretas, não estamos diante de uma análise, mas de um panfleto.
São Tomás de Aquino nos recorda que a justiça é a virtude que dá a cada um o que lhe é devido. E o que é devido a qualquer profissional, em qualquer área, é o respeito à sua fama e a presunção de sua boa intenção até prova em contrário. As acusações de “lambanças” ou a insinuação de que um nome de árbitro é um anagrama para “ajuda Abel” não são meras licenças poéticas. São atos que ferem a honra alheia e envenenam o ambiente de debate, transformando a preocupação legítima em mero ressentimento ou fofoca amplificada. Pio XII, por sua vez, advertia contra a massificação da opinião, onde o “povo”, discernidor, cede lugar à “massa”, facilmente manipulável por paixões e narrativas simplistas, especialmente quando a mídia abdica de sua responsabilidade ética.
O verdadeiro problema, portanto, não reside apenas na percepção de uma arbitragem falha, mas na disposição de abraçar narrativas que, ao invés de buscar soluções sistêmicas – como maior transparência nos critérios de seleção e avaliação dos árbitros, processos de revisão mais claros ou tecnologias de apoio à decisão –, preferem a via fácil da difamação. É a sanidade contra a loucura lógica das ideologias, diria Chesterton, que se manifesta na insistência em reduzir toda complexidade a uma conspiração ou a um bode expiatório individual. As oscilações de desempenho de um clube, a mudança de comando técnico, os desafios de planejamento – como os do Cruzeiro em sua busca por um lugar no topo da tabela ou na Libertadores – são questões que exigem análise sóbria e multifacetada, não a simplificação para “trabalhos destruidores” sem qualquer contextualização.
A reconstrução moral-cultural de nosso esporte exige, antes de tudo, o primado da veracidade no espaço público. Isso implica um compromisso com o fato, a recusa em disseminar rumores e a coragem de diferenciar o erro humano – inerente a qualquer atividade – da má-fé não comprovada. Pedro Lourenço, presidente do Cruzeiro, aponta na direção correta ao afirmar que é preciso “pensar grande, pra frente, e trabalhar muito”. Mas o pensar grande e o trabalhar muito incluem também a elevação do debate, a exigência de que o palco da opinião pública sirva à justiça e à busca da verdade, e não à paixão partidária que se contenta com acusações infundadas.
A nobreza do esporte reside em sua capacidade de manifestar a excelência humana e de unir as pessoas em torno de um ideal de superação. Quando a esfera pública, em vez de exigir clareza e lisura, se entrega à especulação maliciosa, ela desvirtua a competição e desintegra a ordem moral. A um juízo reto, cabe, portanto, recordar que o respeito às regras não se aplica apenas aos jogadores e árbitros em campo, mas, primeiramente, àqueles que o analisam fora dele.
O jogo limpo, em última instância, começa na palavra verdadeira.
Fonte original: Jornal Estado de Minas | Not�cias Online
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