Ainda que o apito inicial de um jogo de futebol seja o som mais aguardado por milhões, a hora exata desse som, quando envolta em névoa, transforma a expectativa em uma loteria de frustrações. O jornal “O Povo” prestou um serviço notável ao compilar a vasta agenda de partidas para o dia 22 de março de 2026, abarcando dezenas de ligas globais e nacionais, de Tokyo a Goiânia, do Campeonato Japonês ao Brasileirão Série A. É um esforço louvável de centralização de informações que, de outra forma, estariam dispersas num emaranhado de plataformas e fusos. Contudo, essa generosidade factual, ao falhar em um detalhe crucial, torna-se um fardo para o leitor.
A verdade, para São Tomás de Aquino, é a adequação da inteligência à realidade. No jornalismo, isso se traduz na entrega de uma informação que não apenas <em>existe</em>, mas que <em>faz sentido</em> e <em>serve</em> a quem a busca. A omissão do fuso horário padrão para a programação detalhada de quase setenta jogos, espalhados por diversos continentes e fusos, é uma lacuna que compromete a própria utilidade da informação. Não se pode simplesmente pressupor que o leitor, sozinho, irá calibrar seu relógio interno para cada liga estrangeira ou mesmo para as distintas realidades de fuso dentro do Brasil. A tarefa de um guia é guiar, não delegar a navegação em mares tempestuosos sem uma bússola.
É a loucura moderna, como Chesterton bem notaria, que no afã de ser exaustiva, torna-se abstrata. Ao listar cada jogo e cada plataforma de transmissão — uma realidade já fragmentada e onerosa para o consumidor — e deixar de fora o contexto temporal essencial, o esforço editorial corre o risco de sobrecarregar mais do que informar. A multiplicidade de canais e o custo de assinaturas múltiplas já colocam uma barreira. Somar a isso a incerteza do “quando” é um desserviço que trai a boa intenção inicial. O que deveria ser um facilitador transforma-se num labirinto, onde a jornada para assistir a um jogo pode ser tão exaustiva quanto a partida em si.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente através de Pio XII, sempre alertou para a importância de uma comunicação que sirva ao “povo” como indivíduos conscientes, e não o trate como uma “massa” a ser meramente inundada por dados. A <em>veracidade</em> de uma notícia não reside apenas na exatidão dos nomes e das datas, mas na <em>completude</em> que permite ao receptor agir com <em>prudência</em>. A <em>justiça</em> para com o leitor exige que a informação seja acessível e inteligível, sem transferir o ônus de decifrá-la para quem já busca simplicidade. A <em>responsabilidade</em> editorial de um veículo de imprensa não se encerra na coleta; ela se aperfeiçoa na apresentação clara e inequívoca.
Uma agenda tão vasta, portanto, é um testamento de <em>laboriosidade</em>, mas a ausência de um fuso horário explícito é uma falha que macula seu valor intrínseco. Ela é como um mapa de tesouros com todas as marcações, menos a rosa dos ventos. A vocação do jornalismo é iluminar, e a luz deve ser forte o bastante para dissipar qualquer sombra de dúvida sobre o “quando” e o “onde” da realidade.
A compilação de jogos é um mérito que não pode ser desmerecido, mas o serviço de informação apenas se completa quando a clareza é tão absoluta quanto a paixão pelo esporte. Uma agenda que não orienta plenamente o leitor sobre o “quando” dos eventos que tanto ama, corre o risco de ser um compêndio completo de dados incompletos. A verdade, para ser útil, não pode ser uma adivinhação.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.