A cena é anômala e, por isso mesmo, instrutiva. Um senador da República brasileira, no sábado de 28 de março de 2026, sobe ao palco do CPAC, um evento conservador no Texas, Estados Unidos. Diante de uma audiência estrangeira, o político, que também é pré-candidato à Presidência do Brasil, não busca aprimorar relações ou propor projetos de cooperação mútua. Em vez disso, Flávio Bolsonaro apela por “monitoramento da liberdade de expressão” e “pressão diplomática” dos EUA sobre as eleições e instituições brasileiras, sob a alegação de que a democracia nacional estaria comprometida e de que seu país estaria à beira de uma “crise econômica devastadora” e uma “expansão enorme de cartéis narcoterroristas”. Seu discurso, recheado de citações a supostas fraudes eleitorais em 2022 e perseguição judicial contra seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, revela uma gravíssima desordem de prioridades e de princípios.
É legítima a preocupação com a transparência dos processos eleitorais e a imparcialidade das instituições de justiça em qualquer nação. A busca por segurança pública e estabilidade econômica é uma aspiração de todo povo digno. Todavia, a maneira como tais inquietações são endereçadas não é indiferente à moral nem ao direito. Quando um agente público de alta patente, que jurou lealdade à Constituição de seu país, descredita suas próprias instituições em foro estrangeiro e solicita a intervenção de uma potência externa, ele não está defendendo a liberdade nem a justiça. Está, na verdade, erodindo as fundações da soberania nacional e a confiança pública na capacidade do próprio Estado de autorregular-se e corrigir seus rumos. A Doutrina Social da Igreja sempre ressaltou a importância da soberania e da independência das nações como pilares de uma ordem internacional justa, baseada no respeito mútuo e na autodeterminação dos povos.
A hierarquia da verdade e da justiça, que deve reger a vida pública, não admite a difusão de alegações graves sem a devida comprovação. As acusações de que as eleições de 2022 foram fraudadas, ou de que a USAID e o governo Biden interferiram para “trazer Lula ao poder”, carecem de qualquer prova consistente, conforme apontado inclusive por relatórios internos das Forças Armadas brasileiras. Fomentar tais narrativas não é buscar a verdade, mas semear a desconfiança e a polarização. Pio XII, em sua época, já alertava para os perigos da massificação e da manipulação da opinião pública, contrapondo-a à noção de “povo”, que se articula em corpos intermediários e em instituições legítimas. Um líder que apela a fantasmas ideológicos para justificar um pedido de tutela estrangeira sobre sua própria pátria está trocando a solidez do direito pela volubilidade da propaganda.
É fundamental que a República Brasileira preserve sua ordem moral pública e a liberdade ordenada de seus cidadãos. A liberdade, segundo ensinamentos de Leão XIII, não pode ser um pretexto para o caos ou para a subversão da autoridade legítima. Ao invocar a “pressão diplomática” para que as instituições brasileiras “funcionem adequadamente”, sem apresentar os critérios objetivos para tal ou os canais internos de correção já previstos na lei, o senador transforma um debate que deveria ser interno e pautado pela legalidade em um espetáculo internacional de vitimização e deslegitimação. Tal postura não eleva o Brasil; antes o apequena, ao pintá-lo como uma nação incapaz de gerir seus próprios destinos.
A virtude da justiça exige que cada um receba o que lhe é devido, e que as instituições operem conforme a lei, sem exceções. A veracidade, por sua vez, é o oxigênio do debate público saudável, sem o qual a política se degenera em mera disputa de poder sem escrúpulos. Quando um pré-candidato à presidência de seu país opta por minar a credibilidade dos próprios mecanismos que o poderiam levar ao cargo, ele revela uma profunda contradição. A condenação judicial do ex-presidente, pai do senador, por tentativa de golpe de Estado, deve ser tratada no âmbito da justiça, não como pretexto para alegações genéricas de “perseguição” que buscam desacreditar o sistema.
A verdadeira força de uma nação reside na solidez de suas instituições e na confiança que seu povo deposita nelas. Desfazer essa confiança, convidando olhares estrangeiros para intervir em assuntos internos sob a égide de uma narrativa infundada, é enfraquecer os alicerces da casa comum. A liberdade e a soberania não são meras abstrações, mas realidades conquistadas e mantidas pela reta razão e pela justiça incansável, que jamais se curvam ao cálculo político passageiro ou à ambição particular.
Fonte original: pleno.news
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.