A arena política, por sua própria natureza, exige clareza de propósito e um horizonte que transcenda os portões da própria casa. No entanto, quando as articulações para a mais alta magistratura da nação se confundem com as urgências de um clã, o espetáculo da vida pública arrisca-se a virar um melodrama familiar, com figurinos trocados e diálogos forçados. A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República em 2026 desenha um cenário onde as preocupações legítimas de um projeto de poder se embaraçam com os fios de uma teia intrincada de defesa e permanência de um grupo, levantando a questão central: a serviço de quem está, de fato, a máquina do Estado? Não se trata aqui de julgar intenções secretas, mas de discernir a ordem dos bens e a reta razão na praça pública.
O primeiro sinal de desordem surge na inconstância do discurso, que lança uma sombra sobre a virtude da veracidade. Flávio Bolsonaro, conhecido pelo apelido de “Zero Um”, tenta vestir um figurino de moderação e inclusão, acenando com a linguagem de “todes” e votando a favor de uma lei que equipara a misoginia ao racismo. A cena é de espantar o bolsonarista raiz, aquele que ouviu do próprio pai, Jair Bolsonaro, a preferência por um “filho morto em acidente a um homossexual”, e que vibrou com a retórica da confrontação. Essa metamorfose, veloz demais para ser orgânica, não se alinha com a exigência de honestidade intelectual que a política séria demanda. Um líder que muda de pele conforme o vento eleitoral perde a credibilidade essencial para guiar uma nação. A sanidade política, como Chesterton nos lembrava, reside na firmeza com o real, e não na loucura lógica de quem tenta ser tudo para todos.
Contudo, o nó mais apertado desta trama familiar reside na explícita priorização de interesses particulares sobre os imperativos da justiça e do dever público. As falas do chefe do PL, Valdemar Costa Neto, em que a vitória eleitoral é vista como tábua de salvação para que “o Bolsonaro vai ficar mais oito, dez anos fechado (preso)”, ou as próprias declarações de Flávio sobre a necessidade de um presidente “que tenha o comprometimento (…) de que isso (o indulto) seja cumprido”, invertem a ordem fundamental dos bens. O Estado, segundo a Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, não é uma propriedade privada de onde se extraem favores ou blindagens jurídicas. Sua razão de ser é a ordem justa da cidade, a proteção da moral pública e a aplicação imparcial da lei. Instrumentar a Presidência da República como um balcão de negociação judicial para um clã é uma deturpação da finalidade da autoridade, um golpe contra a dignidade da lei e uma forma sutil de “estatolatria” familiar, à qual Pio XI já advertia.
A fragilidade de tal projeto se agrava ao se recordar o passado judicial do próprio Flávio. As acusações de peculato e lavagem de dinheiro no caso da “rachadinha”, embora as provas tenham sido anuladas por questões processuais, deixam uma sombra sobre a pretensão de liderar o país. A honestidade na gestão da coisa pública é um pilar insubstituível. Como bem observou Sergio Moro em outro contexto, “chega de rachadinha”, e a memória pública, ainda que imperfeita, retém o peso dessas denúncias. Apresentar-se como alternativa para combater a corrupção, sem um acerto de contas claro com o próprio histórico e sem uma demonstração inequívoca de integridade, é exigir do eleitor um salto de fé que a realidade política raramente permite.
Essa visão estreita, focada na família e na sobrevivência judicial, asfixia qualquer possibilidade de um projeto político mais magnânimo para a direita brasileira. Nomes como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Sergio Moro, com suas próprias ambições e bases, veem-se em uma encruzilhada forçada pela primazia de um clã. A energia que deveria ser canalizada para a formulação de soluções robustas para os desafios da nação, para a articulação de corpos intermediários que reflitam a rica complexidade da sociedade e para uma cooperação orgânica em prol de reformas verdadeiramente necessárias, desvia-se para o atendimento de urgências familiares e partidárias. O cenário que se impõe não é o de um diálogo construtivo, tampouco de uma unidade de propósitos, mas de uma disputa entre fidelidades e de uma pulverização de esforços, que, no fim, servem apenas para enfraquecer a capacidade de oposição e de construção de uma alternativa sólida para o país.
A corrida presidencial não é um palco para acertos de contas familiares, nem um mero exercício de malabarismo retórico. É, antes, o lugar onde a nação espera encontrar um projeto de vida comum, alicerçado na justiça, na veracidade e na dedicação desinteressada ao povo. A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, tal como se desenha pelos fatos e pela própria retórica de seus apoiadores, falha em apresentar a estatura moral e a amplitude de visão que o cargo exige. Ao colocar as questões do clã acima das da república, ela trai a essência do serviço público e a confiança que se deposita num governante.
Fonte original: CartaCapital
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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