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Fernanda Montenegro: Arte, Velhice e a Ambiguidade Moral

Fernanda Montenegro: ícone da arte aos 96, mas suas falas sobre 'bandidagem' para 'justiça social' geram debate moral. Analisamos a fronteira entre expressão artística e ética.

🟢 Análise

Quando o palco da vida pública se confunde com a arena do teatro, a voz do artista, que tem a capacidade de iluminar e encantar, pode, por vezes, obscurecer a reta razão, especialmente ao navegar pelos complexos labirintos da política e da moral. Fernanda Montenegro, aos 96 anos, uma das maiores atrizes de nossa história, irradia uma vitalidade que é, em si mesma, um testemunho de uma vida dedicada à arte e à resistência. Sua longevidade ativa, seus múltiplos projetos e sua recusa em ceder ao tempo são um antídoto poderoso contra o etarismo e uma inspiração genuína para qualquer um que busca a perseverança em sua vocação. Reconhecer essa grandeza artística e cívica é um dever, e sua observação sobre a resiliência do cinema brasileiro, que “mesmo sem bilhões de dólares, não deixa de existir”, é um lembrete tocante da força de nossa cultura.

No entanto, a autoridade do artista, por mais merecida, não se traduz automaticamente em infalibilidade moral ou lucidez política. Quando a atriz, em sua entrevista, projeta sua experiência pessoal de “acordar e cantar” como um norte universal, a narrativa pode, sem intenção, silenciar as muitas vozes de idosos para quem a velhice é uma luta diária contra a precariedade, a doença e a solidão. A verdadeira dignidade da pessoa humana se afirma em todas as fases da vida, e a caridade pede que não se idealize a exceção ao ponto de obscurecer a dura realidade de muitos, que não dispõem dos mesmos privilégios ou reconhecimento.

O nó górdio reside na mistura, que é marca de nosso tempo, entre a crítica social e a justificação moralmente dúbia. Ao descrever os personagens de seu novo filme, “Velhos Bandidos”, como aqueles que recorrem à “bandidagem” por “justiça social”, em contraponto aos “verdadeiros bandidos” que estariam na estrutura governamental, a atriz tangencia uma fronteira perigosa. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII e Pio XI, tem sido clara: a busca pela justiça social é imperativo categórico, mas os meios para alcançá-la devem ser lícitos e conformes à ordem moral objetiva. Não há “justiça social” que se construa sobre a licença para o ilícito. A finalidade não santifica os meios; ao contrário, meios injustos corrompem o fim pretendido. É o paradoxo moderno, com ares de Chesterton, de quem, querendo endireitar, curva a própria lei moral para que ela caiba em seus caprichos ideológicos.

A comunicação responsável, tão enfatizada por Pio XII, demanda uma clareza que distinga fato de opinião, e juízo moral de licença política. As críticas a um “possível governo estrangulador” ou à “estrutura governamental na mão do crime”, embora legítimas enquanto preocupação com a integridade da governança, exigem mais do que rótulos. Precisam de veracidade e substância, sob pena de instrumentalizar uma plataforma respeitável para polarizar em vez de edificar. O papel do artista, em uma sociedade que tende à massificação e à superficialidade, deve ser o de elevar o debate, não o de reduzi-lo a clichês ideológicos ou justificativas que subvertem a ordem da justiça.

A vitalidade de Fernanda Montenegro é um presente. Seu empenho em levar à cena o texto de Cícero, “Sobre a Velhice”, com sua “visão… extremamente corajosa” sobre a morte, aponta para uma transcendência necessária. Contudo, essa transcendência não se concretiza ao se justificar a “bandidagem” ou ao se confundir a ficção do palco com a gravidade das ações na realidade. A arte tem a capacidade de desvelar a verdade, de tocar o espírito e de inspirar a ação virtuosa. Mas sua força se esvai quando se torna pretexto para desordenar os bens, ou quando a voz do mestre, ao invés de guiar para o alto, resvala para o abismo do relativismo moral.

A verdadeira contribuição de um ícone não reside em sua capacidade de validar quaisquer opiniões que expresse, mas em sua constância à verdade e à beleza. A cultura que merecemos construir não é aquela que romantiza o crime em nome de uma justiça autoatribuída, mas aquela que exige do Estado a justiça devida, e do cidadão, a responsabilidade de agir pelos meios legítimos. É tempo de reconhecer a grandiosidade da arte sem, contudo, conceder salvo-conduto à confusão moral ou à polarização política. A vida, afinal, não é um mero palco, mas uma sucessão de escolhas reais que nos convocam à veracidade.

Fonte original: Terra

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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