Há um quê de paradoxo, eminentemente chestertoniano, no coração da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro: uma “fazendinha” de cidade grande, quase uma réplica em miniatura do Éden em meio ao asfalto febril e à buzina incessante da Avenida Brasil. A iniciativa do Sesc Senac, ao institucionalizar visitas pedagógicas a sua horta agroecológica, desperta, à primeira vista, um louvor espontâneo. Quem não aplaudiria a criação de um pulmão verde que filtra o ar urbano, abafa o ruído ensurdecedor da metrópole e ainda oferece a crianças — muitas das quais creem que o alimento brota das prateleiras do supermercado — a oportunidade de tocar a terra, entender o ciclo da vida e aprender sobre sustentabilidade? É uma ação que, sem dúvida, cumpre um papel pedagógico valioso e injeta uma dose de reta razão na formação de almas citadinas, expondo-as à lei natural que rege o crescimento e a colheita, algo crucial para a dignidade da pessoa humana que se entende parte da Criação.
No entanto, a virtude, quando superdimensionada, pode gerar sua própria forma de desordem moral. Se a pequena fazendinha é um exemplo luminoso de boa vontade e um bálsamo para a alma dos que a visitam, a pretensão de elevá-la a uma “política permanente” com impacto significativo na segurança alimentar “em todo o estado” ou como solução para os desafios sistêmicos da sustentabilidade urbana exige um escrutínio mais prudente. Não se trata de desmerecer o esforço ou a boa intenção, mas de aplicar a caridade na verdade. São Tomás de Aquino nos recorda que a prudência é a mãe de todas as virtudes, aquela que nos faz discernir o verdadeiro bem em qualquer circunstância e os meios para alcançá-lo. Aqui, a verdade dos fatos se choca com a grandiloquência das expectativas.
Vejamos os números: 1,5 tonelada de alimentos doados em um ano, 928 quilos em dois meses de 2026. Em um estado com milhões de habitantes e uma demanda colossal por alimentos, a contribuição da fazendinha, embora louvável em si, é mais simbólica do que substantiva para o combate à fome em larga escala. Confundir o exemplar com o exaustivo, o gesto com a solução, é incorrer em uma forma de idealismo que pode desviar recursos e energias de intervenções que, em nome do bem comum e da solidariedade, poderiam ter um impacto mais profundo e abrangente. É como tentar apagar um incêndio florestal com um regador de jardim, por mais bem-intencionado que seja o jardineiro. A eloquência dos dados, por vezes, é mais reveladora que a poesia das intenções.
Ademais, surge a questão da subsidiariedade e do acesso equitativo. Se o projeto é pedagógico, sua força está na capilaridade e na democratização da experiência. Mas quão equitativo é o acesso a esta “bolha” verde para as comunidades mais vulneráveis e distantes da Penha, que carecem de recursos logísticos para transportar seus grupos? A iniciativa, por ser centralizada e de grande porte institucional, pode involuntariamente criar uma assimetria de poder, ofuscando e desincentivando pequenas hortas comunitárias ou programas locais que, embora menos visíveis, poderiam ter um impacto mais enraizado e escalável nas vizinhanças mais necessitadas. O dever de responsabilidade do Sesc/Fecomércio não se encerra na criação de um ponto de excelência, mas se estende à garantia de que a mensagem e a oportunidade cheguem àqueles que mais precisam, sem que as barreiras geográficas ou sociais se tornem um novo tipo de muro.
A verdadeira questão que se impõe, então, não é se a Fazendinha Sesc Senac é um bom projeto — ela o é, em sua essência pedagógica e na preservação de um espaço verde. A indagação fundamental é se ela está sendo apresentada com a devida prudência e verdade em relação ao seu impacto real. O que se gasta em manutenção, publicidade e expansão desta “fazendinha” de 1.420 metros quadrados seria mais bem empregado em fomentar centenas de hortas comunitárias em favelas e bairros periféricos, ou em programas de capacitação para que as próprias comunidades se tornem “agentes multiplicadores” de suas próprias pequenas revoluções verdes? A Doutrina Social da Igreja nos chama a considerar o uso eficiente dos bens, para que o bem de poucos não se torne um impedimento para o bem de muitos.
Em suma, a Fazendinha é uma semente boa, plantada em solo fértil, que ensina e nutre localmente. Sua vocação primordial não é solucionar a fome ou reverter o aquecimento global do Rio de Janeiro, mas ser um farol educativo e um oásis de normalidade para a alma urbana, um lugar onde a lei natural se manifesta de forma palpável. O erro não está em sua existência, mas na tentação de vendê-la como a solução para problemas que exigem uma intervenção sistêmica e uma prudência que vá além do simbolismo. Que ela continue a florescer, ensinando o valor da terra e do trabalho, mas sem a ilusão de que um pequeno jardim possa alimentar toda uma cidade. Pois, para o bom polemista, como para o bom jardineiro, a virtude consiste em cultivar o próprio quintal sem prometer a colheita do mundo.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.