Quando um diagnóstico é tão abrangente que vê a doença em todas as células, desde o menor arranjo familiar até a mais alta cúpula do Estado, ele pode até ter o ar de uma verdade sistêmica, mas corre o risco de se tornar uma cegueira. Tal é a premissa de que a política nacional – com seus avanços, seus revezes, suas alianças impensáveis e suas fraturas dolorosas – não passa de uma “farsa”, um arranjo cínico da burguesia e do imperialismo para desviar a consciência dos trabalhadores. É uma narrativa potente, que reconhece a inegável influência dos grandes grupos econômicos e do capital estrangeiro sobre a vida pública, e denuncia as persistentes desigualdades que minam a justiça social. Contudo, essa força explicativa, quando se eleva à categoria de dogma totalitário, descamba para a patologia.
A Igreja, que por dois milênios observou a miséria humana e a busca incessante por uma ordem justa, sempre reconheceu a realidade da exploração e a necessidade de lutar por direitos. Leão XIII, em sua Rerum Novarum, não hesitou em condenar a ganância e a opressão dos trabalhadores, defendendo o salário justo, a propriedade com função social e a liberdade de associações. Pio XI, com a Quadragesimo Anno, aprofundou essa compreensão ao sublinhar o princípio da subsidiariedade, que protege os corpos intermediários da sociedade – famílias, sindicatos, comunidades – da asfixia de um Estado onipotente ou de uma classe dominante sem freios. Nessa perspectiva, a “consciência política” não é a mera descoberta de um inimigo de classe a ser derrubado, mas o discernimento da reta ordenação da sociedade, onde a dignidade de cada pessoa, e não de uma categoria abstrata, é o bem supremo.
É legítima a preocupação com a fragilidade das instituições democráticas diante da força bruta do poder econômico, assim como a memória dolorosa de golpes de Estado, como o de 1964, que esmagou a liberdade em nome de interesses escusos. Mas reduzir toda a dinâmica democrática a uma “farsa”, desqualificando alianças pragmáticas e conquistas incrementais como “fumaça nos olhos”, é mais do que uma análise crítica: é uma recusa da realidade multifacetada da ação política. Políticas sociais, ainda que paliativas e incompletas, como foi o Bolsa Família, não podem ser simplesmente descartadas como “superficiais” ou “varridas do mapa”. Elas aliviam sofrimentos reais, nutrem a esperança e, muitas vezes, servem como bases para futuras mobilizações e para uma maior conscientização popular, que se dá na experiência concreta do bem, e não apenas na denúncia abstrata do mal.
A postura que rechaça a busca por postos no Estado como intrinsecamente “desmoralizante” ou que vê qualquer aliança política como “colaboração com a burguesia” revela uma pureza ideológica que, paradoxalmente, pode levar à impotência política. A história, observada sem as lentes deformadoras de um classismo rígido, mostra que a construção de maiorias e a implementação de reformas dependem, muitas vezes, de um juízo reto que avalia o terreno, pesa os custos e busca a articulação de forças diversas. A insistência na “loucura lógica das ideologias”, que Chesterton tanto ironizava, consiste precisamente em preferir a coerência de um sistema explicativo total à complexidade muitas vezes confusa, mas viva e real, dos fatos. Ignorar os avanços possíveis para esperar a revolução total é uma receita para a marginalidade e para a perpetuação do sofrimento.
Assim, quando se taxam de “farsa total” lutas contra o “fascismo” ou se descredita a busca por um governo minimamente representativo, corre-se o risco de paralisar as forças sociais que poderiam, de fato, resistir às ameaças autoritárias. A justiça social que a Doutrina da Igreja propõe é um trabalho constante, feito de avanços e recuos, de defesa e proposição, que valoriza a ação de todos os corpos sociais e reconhece a legitimidade dos esforços graduais. Não é uma utopia distante, a ser alcançada por uma ruptura radical, mas um horizonte a ser perseguido a cada passo, com honestidade na análise e fortaleza na ação.
Não se constroem bases sólidas para a libertação dos trabalhadores e para a verdade da cidade desqualificando toda e qualquer tentativa de ordenar o presente. A grandeza de uma nação reside na capacidade de seus cidadãos de edificar o futuro sobre as pedras da experiência e do direito, com a clareza de que o bom combate exige discernimento e a disposição para aceitar vitórias parciais, mas reais. Não se derrubam muralhas com discursos vazios, mas com a construção paciente, pedra por pedra, de uma sociedade mais justa e mais humana, cujas fundações resistam aos ventos das ideologias e às intempéries da história.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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