O governo brasileiro tem adotado cautela em sua reação à possível classificação, por parte dos Estados Unidos, de facções criminosas nacionais como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas e ameaças à segurança americana. O receio principal é que essas movimentações políticas possam inviabilizar um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Donald Trump na Casa Branca, previsto para abril, conforme reportado em 11 de março de 2026.
Liderada pelo Itamaraty, a estratégia brasileira consiste em reunir informações sobre as ações do Estado no combate ao crime organizado, incluindo a aprovação da PEC da Segurança, do Projeto de Lei Antifacção – que aguarda sanção presidencial –, e operações da Polícia Federal, como a Carbono Oculto, que visam desarticular o braço financeiro das organizações. Integrantes do governo envolvidos em discussões técnicas com os EUA sustentam que, diante dos elementos apresentados, "qualquer intervenção seria redundante" ao que já é feito internamente. O trabalho é conduzido com "sensibilidade diplomática" para preservar o encontro presidencial, visto por auxiliares de Lula como um "trunfo eleitoral" em um relacionamento construído desde setembro do ano passado.
A potencial classificação impede uma reação mais dura do governo brasileiro, embora Lula já tenha declarado em contexto de "tarifaço" imposto por Trump em julho anterior que o "Brasil é um país soberano com instituições independentes que não aceitará ser tutelado por ninguém". Pesquisa da Quaest, divulgada em 11 de março, indicou 51% de aprovação e 44% de desaprovação para a gestão Lula. Oficiais do Departamento de Estado americano, conforme O GLOBO, consideram as facções brasileiras "uma ameaça relevante à segurança regional", preocupando autoridades no hemisfério. Aliados do governo Lula alertam que a classificação do PCC e do CV como terroristas poderia ter "graves efeitos sobre a soberania do país e poderia ser usada como justificativa para intervenções dos Estados Unidos em assuntos internos".
No Congresso, lideranças da base aliada de Lula afirmam publicamente que a classificação seria uma "espécie de segundo ato da ação internacional da família Bolsonaro" contra os interesses brasileiros. Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Senado, declarou que o "PCC e o CV nunca foram tão combatidos como no governo Lula" e que a oposição "sonha com uma intervenção estrangeira em nosso país". Pedro Uczai (PT-SC), líder do PT na Câmara, caracterizou as facções como "organizações criminosas que querem ganhar dinheiro ilicitamente, não têm uma ideologia por trás", questionando os interesses dos Estados Unidos, que "não têm interesse em enfrentar o crime organizado, está com outros interesses que precisam ser explicitados".
A cautela demonstrada pelo governo brasileiro diante da potencial classificação de facções criminosas nacionais como grupos terroristas pelos Estados Unidos, motivada pela manutenção de um "trunfo eleitoral" em uma visita presidencial, revela uma perigosa subordinação da política externa e da soberania nacional a interesses políticos conjunturais. A preocupação em preservar um encontro bilateral eclipsa uma postura mais incisiva na defesa da autonomia do país e na redefinição do complexo fenômeno do crime organizado, preferindo uma diplomacia reativa que tenta apaziguar em vez de questionar as premissas subjacentes a tal movimento. A implicação de uma possível intervenção externa, disfarçada de combate ao terrorismo, deveria, por si só, ser motivo de uma rejeição veemente.
A tentativa dos Estados Unidos de redefinir o crime organizado brasileiro como terrorismo é um ato que, sob a lente crítica de pensadores como Nancy Fraser, pode ser interpretado como uma reconfiguração da pauta política para servir a agendas hegemônicas. Ao invés de reconhecer as complexas raízes socioeconômicas e históricas que alimentam o surgimento e a expansão dessas organizações no Brasil – um legado de desigualdade e exclusão social persistentemente analisado por Florestan Fernandes –, a narrativa securitária despolitiza a questão, transformando um problema estrutural em uma ameaça puramente transnacional que exige soluções militares. Essa abordagem ignora o fato de que o crime organizado muitas vezes preenche lacunas deixadas pela ausência do Estado em comunidades vulneráveis, evidenciando uma falha sistêmica na promoção de direitos e oportunidades.
Os impactos distributivos dessa reclassificação seriam perversos, pois legitima uma retórica de "guerra ao terror" que, historicamente, se traduz em políticas de segurança mais repressivas, militarização das fronteiras e, inevitavelmente, na criminalização de parcelas da população já marginalizadas. Tais medidas raramente desmantelam as redes criminosas de forma eficaz, mas servem para fortalecer o aparato de vigilância e controle, com graves consequências para os direitos humanos e a dignidade das comunidades periféricas, que arcam com o ônus da violência, seja ela estatal ou paraestatal. O suposto combate ao "terror" pode, assim, se tornar um pretexto para intervenções que minam a autonomia brasileira e desviam o foco de reformas sociais urgentes.
Uma política externa e de segurança pública verdadeiramente progressista demandaria a reafirmação intransigente da soberania brasileira e a priorização de soluções endógenas que ataquem as causas estruturais da criminalidade. Isso significa investir massivamente em políticas públicas inclusivas – educação de qualidade, saúde universal, moradia digna e oportunidades de trabalho – que, na visão de Amartya Sen, expandam as capacidades dos indivíduos e deslegitimem o poder paralelo. A democratização das forças de segurança, a reforma do sistema prisional e o combate rigoroso à corrupção, em vez de uma adesão acrítica a estratégias externas punitivas, seriam os pilares de uma abordagem que visa a justiça social e a construção de uma sociedade mais equitativa.
Facções Criminosas no Brasil: Soberania e o Dilema da Classificação Externa
O debate em torno da potencial classificação de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas pelos Estados Unidos revela uma encruzilhada crucial para a soberania nacional e a definição de uma política de segurança pública orientada pelo bem comum. De um lado, a diplomacia brasileira, movida pela prudência política e pelo desejo de manter canais de diálogo, busca demonstrar os esforços internos no combate ao crime organizado, temendo que uma intervenção externa fragilize a autonomia nacional. De outro, a crítica se eleva, apontando para o risco de subordinação a agendas hegemônicas, despolitização de problemas estruturais e a perversão de políticas securitárias que, sob a bandeira antiterror, podem militarizar e marginalizar.
A Prudência Diplomática e a Defesa da Soberania
É inegável que toda nação soberana tem o direito e o dever de combater o crime em seu território, utilizando-se de suas instituições e de seu arcabouço legal. A busca por um diálogo respeitoso com parceiros internacionais, como demonstra a estratégia do Itamaraty, é, em princípio, um ato de prudência, uma vez que a política externa deve zelar pelos interesses do Estado e evitar tensões desnecessárias. Contudo, essa prudência, para ser virtuosa, conforme nos ensina Aristóteles, não pode se reduzir à mera conveniência política ou ao cálculo eleitoral; ela deve estar a serviço da razão reta e do verdadeiro bem da comunidade, discernindo a melhor ação no contexto particular, mas sem perder de vista os princípios universais.
Riscos da Classificação Externa e a Autonomia Brasileira
A legítima preocupação levantada pela Antítese, de que a classificação externa possa reconfigurar a pauta política e levar a intervenções indesejadas, ecoa um temor profundo por nossa autonomia. A história recente nos alerta para os perigos de narrativas que transformam problemas sociais complexos em ameaças puramente securitárias, abrindo espaço para estratégias que ignoram as raízes da desigualdade e da exclusão. A visão de São Tomás de Aquino sobre a lei natural e o bem comum nos recorda que a ordem social não se estabelece apenas pela repressão, mas, fundamentalmente, pela justiça e pela promoção das condições para que todos os cidadãos possam florescer. A ausência do Estado em regiões vulneráveis, mencionada na Antítese, é um convite à desordem e um terreno fértil para o poder paralelo.
Rumo ao Bem Comum: Fortalecendo a Nação
A verdadeira superação deste dilema passa por uma reafirmação inabalável da soberania nacional, pautada pela sabedoria e pela virtude. O Brasil, guiado pela prudência, deve declarar-se plenamente capaz de combater suas facções criminosas, não cedendo à pressão para que essas sejam enquadradas em categorias estrangeiras que podem distorcer a realidade local e abrir precedentes perigosos. A dignidade da pessoa humana e o bem comum exigem que o enfrentamento ao crime organizado seja abrangente: rigoroso na aplicação da lei, mas também profundo nas políticas sociais que visam erradicar as causas da marginalização.
A Doutrina Social da Igreja e a Cooperação Internacional
A Doutrina Social da Igreja nos oferece um caminho, insistindo na subsidiariedade – a ideia de que os problemas devem ser resolvidos no nível mais próximo possível da sua ocorrência – e na solidariedade, que exige cooperação entre as nações, mas sempre em bases de respeito mútuo e não de imposição. O Brasil pode e deve cooperar com outros países no combate ao crime transnacional, compartilhando inteligência e recursos, mas tal colaboração deve fortalecer as instituições brasileiras e nunca diluir sua autoridade ou capacidade de autodefinição.
Portanto, a questão não é meramente aceitar ou rejeitar uma classificação externa, mas sim fortalecer a nação em sua capacidade de discernimento e ação. Isso implica um compromisso irrestrito com a justiça, que se manifesta tanto na punição rigorosa dos criminosos quanto na promoção de uma sociedade equitativa. A verdadeira força de um país reside em sua capacidade de resolver seus próprios problemas com sabedoria, sem abdicar de sua soberania ou de sua identidade, e de fazê-lo em nome do bem comum de todos os seus cidadãos. A prudência requer que a busca por uma visita presidencial não ofusque a clareza sobre o que é essencial para a dignidade e a segurança de nossa gente.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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