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Exército Israelense em Alerta: A Crise da Isenção Haredim

Israel enfrenta um alerta de colapso militar, agravado pela guerra e pela isenção de haredim do serviço. A coluna analisa como a injustiça na partilha dos encargos fragiliza a nação e erode a coesão social.

🟢 Análise

A estrutura de metal, sob tensão contínua, não cede de uma vez, mas por fissuras invisíveis que se alastram no seu cerne, silenciosamente minando sua resiliência. É assim que o alerta grave das lideranças militares israelenses sobre um possível colapso do Exército deve ser compreendido: não como uma implosão súbita, mas como o resultado da erosão interna, agravada por um fardo externo sem precedentes. Desde o ataque do Hamas em outubro de 2023, Israel tem travado uma guerra existencial em múltiplas frentes — Gaza, Líbano, Síria, Irã — que impôs um custo humano e logístico extraordinário, com dezenas de milhares de vidas perdidas e centenas de milhares de civis deslocados em toda a região. A necessidade de defender as fronteiras e o próprio povo é inegável, e o heroísmo dos soldados, inconteste.

Contudo, por mais legítima que seja a resposta a tais ameaças, a força de uma nação não se sustenta apenas pela ferocidade de suas armas ou pela coragem de seus combatentes. O déficit alarmante de 15 mil soldados, com 8 mil deles em posições de combate, e o esgotamento dos reservistas, que passam mais de cem dias anuais no front desde 2023, são sintomas de uma fragilidade que não pode ser ignorada. As advertências de generais como Zamir e Avi Bluth não são meras lamentações, mas diagnósticos cruéis de uma realidade operativa que o cálculo político parece relutar em enfrentar.

No coração dessa fissura reside a questão da justiça na partilha dos encargos. Desde a fundação do Estado, uma parcela significativa dos judeus ultraortodoxos (haredim) tem sido historicamente isenta do serviço militar obrigatório, um privilégio que se tornou insustentável em tempos de guerra. Em junho de 2024, a Suprema Corte de Israel determinou a convocação desses cidadãos, mas o governo Netanyahu, refém de sua coalizão com partidos religiosos, optou por manobrar. Em março de 2026, o projeto de lei que obrigaria os haredim a servir foi retirado de pauta para garantir apoio na aprovação do Orçamento, que, por sua vez, destinou R$ 1,3 bilhão a instituições ultraortodoxas.

Essa discrepância revela uma grave distorção da justiça social. A Doutrina Social da Igreja, nomeadamente através dos ensinamentos de Pio XI, sublinha que o Estado tem o dever de promover o bem comum e de zelar por uma distribuição equitativa de direitos e deveres. Quando uma classe de cidadãos é sistematicamente exonerada de um dever fundamental como a defesa da pátria, enquanto outros pagam com sua vida, seu tempo e seu sustento familiar, a coesão social é corroída. A isenção, neste contexto, não apenas sobrecarrega os que servem, mas mina a legitimidade moral do Estado em exigir sacrifícios universais. A prudência política exige que, em tempos de crise existencial, a unidade da nação e a integridade de suas forças de defesa prevaleçam sobre a estabilidade precária de uma coalizão governamental. A sobrecarga dos reservistas, que veem suas vidas profissionais e familiares desmanteladas, não é um mero problema logístico, mas uma ferida moral aberta na alma da nação.

A subsidiariedade, que preconiza a ação dos corpos intermediários e a responsabilidade de cada nível da sociedade, não pode ser usada como pretexto para a omissão de um dever cívico primordial. A contribuição para a segurança nacional é uma responsabilidade compartilhada que edifica o bem da cidade e protege a liberdade de todos. Ignorar os alertas militares e o clamor dos cidadãos por uma partilha mais justa dos encargos não é apenas uma imprudência estratégica; é uma falha na ordem dos bens, onde o interesse político imediato obscurece o bem fundamental da sobrevivência e da justiça para o povo.

Não se pode exigir lealdade e sacrifício total de uma parte da população, enquanto outra é recompensada com isenções e recursos em meio à urgência da batalha. O custo da omissão política é sempre mais alto do que o custo de decisões difíceis, mas justas. A verdadeira segurança, portanto, não reside apenas na força bruta de suas divisões, mas na justiça da sua lei e na unidade moral de seu povo.

Fonte original: O Globo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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