A velha muralha de defesa europeia, testada pelo fogo no Oriente Médio, revelou fissuras tão profundas quanto as que tentou preencher. Os navios de guerra singrando águas distantes e os caças a riscar céus hostis são, sim, um atestado de mobilização, mas também um doloroso inventário de uma fragilidade gestada por décadas de uma dependência estrutural que agora cobra seu preço. O envio de mais da metade da frota de combate francesa ao Golfo Pérsico, a penúria de mísseis Patriot que a Ucrânia mal pôde sonhar em quatro anos de guerra enquanto aliados dos EUA os consumiram em uma semana, e a transferência de sistemas de defesa italianos do Báltico para o Mediterrâneo, deixando uma única bateria em território nacional, não são meros contratempos logísticos. São sintomas graves de uma desordem estratégica que clama por retificação.
Esta mobilização, que para alguns é prova inequívoca de uma paralisia fatal, deve ser vista, sob a ótica da reta razão, como um passo incômodo, mas potencialmente salvífico. Ela desnuda, para todos verem, a falácia de uma paz duradoura construída sobre a abdicação da responsabilidade militar soberana. Por mais incipientes que pareçam os movimentos de rearmamento, eles já servem como um catalisador brutal para a reavaliação de prioridades, forçando nações a confrontarem a escassez real de seus arsenais e a lentidão de uma base industrial de defesa que definhou por ausência de demanda e de visão. A questão não é se a Europa é fraca agora, mas se ela persistirá na confortável ilusão de que a segurança pode ser terceirizada indefinidamente.
Aqui, o ensinamento de Pio XI sobre a subsidiariedade ressoa com uma clareza renovada. A dependência excessiva de uma superpotência externa não apenas esvazia a autonomia estratégica dos estados-nação, mas também corrói a vontade e a capacidade de defesa de seus próprios cidadãos. A justiça exige que cada nação, em cooperação orgânica com seus aliados, carregue sua parte do fardo, protegendo seus interesses e contribuindo para a ordem regional. Este princípio não nega a necessidade de alianças, mas as fundamenta na força de partes que se sustentam mutuamente, e não na fragilidade de um membro que se encosta inteiramente no outro.
A tarefa que se impõe à Europa não é de menor importância: reconstruir, tijolo por tijolo, a capacidade produtiva e a disciplina estratégica. É preciso mais que promessas; é preciso a laboriosidade de se reerguer uma base industrial que possa suprir as necessidades de uma defesa eficaz. A reunião do ministro da Defesa italiano com mais de uma centena de representantes da indústria militar não é uma solução pronta, mas um indicativo de que a urgência começa a ser compreendida. Não se trata de militarismo, mas de senso de realidade e de um dever elementar de proteger o povo e sua legítima soberania. A sanidade, como diria Chesterton, consiste em ver as coisas como elas são, mesmo quando a realidade é dura, e não em fantasiar sobre um conforto que já não existe.
A distinção entre incapacidade total e capacidade apenas estressada é crucial para discernir o caminho a seguir. A Europa, embora sob pressão e com recursos limitados, agiu. Enviou navios, defendeu aliados, protegeu rotas comerciais vitais. Esta não é a paralisia, mas o movimento de um corpo que se estica até o limite, sentindo a dor de décadas de negligência, mas respondendo ao imperativo. Os atrasos e as realocações dolorosas são provas de que o caminho é árduo, mas não insolúvel. Exagerar a iminência de um colapso, ou reduzir a complexidade estratégica a uma simples confissão de impotência, seria cair na armadilha do desânimo, que nada constrói.
É o momento de resgatar o que Pio XII chamava de espírito do “povo” contra a passividade da “massa”. O rearmamento, a formação, a transparência curricular nas escolas sobre os deveres cívicos e a história da defesa, tudo isso contribui para uma cultura de responsabilidade que não pode ser adiada. A segurança verdadeira não se compra com barris de petróleo baratos, nem se confia a escudos alheios.
A reconstrução da defesa europeia é um processo de longa duração, uma empreitada que exige magnanimidade, paciência e, acima de tudo, a firmeza de uma convicção moral. Somente uma Europa que reconhece suas fragilidades presentes e age com inteligência e retidão pode aspirar a uma autonomia estratégica que garanta a paz justa e duradoura para as gerações futuras.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.