A teia da ordem internacional, tecida com tantos fios de compromisso e sacrifício, é um constructo frágil. E como em todo tecido, basta que um fio robusto seja rompido, ou relaxado, para que a trama inteira comece a ceder. A recente decisão dos Estados Unidos de suspender temporariamente as sanções sobre o petróleo russo já em trânsito – uma licença expedida de forma unilateral, mesmo após a oposição expressa de seis membros do G7 – é exatamente esse tipo de relaxamento que pode custar mais caro do que a mais feroz das batalhas.
Os fatos são claros: Washington autorizou a entrega e venda de petróleo e derivados russos carregados em navios até 12 de março, com validade até 11 de abril. A justificativa oficial ecoa a preocupação com a estabilização dos mercados globais de energia, abalados, ironicamente, por ações no Oriente Médio que envolveram os próprios EUA. Mas o que se apresenta como um pragmatismo pontual é, na verdade, uma fissura na muralha da fortaleza moral que o Ocidente tentava erguer contra a agressão.
As críticas não tardaram. Do Presidente ucraniano Volodimir Zelenski, o alerta dramático: até 10 bilhões de dólares em recursos adicionais para a máquina de guerra russa, dinheiro gasto em armas que visam o coração de sua nação. Dos aliados europeus, como o Chanceler alemão Friedrich Merz e o Presidente do Conselho Europeu António Costa, a preocupação com a erosão da unidade, a mensagem errada enviada ao agressor e a violação da confiança entre parceiros. Não é um problema de quantidade de petróleo no mercado, mas de preço, apontou Merz, questionando “quais outros motivos” teriam impulsionado a decisão americana. A transparência devida, nesse caso, foi a primeira vítima.
Neste cenário, a luz da Doutrina Social da Igreja se acende para guiar o juízo. A atitude americana ressoa com a “crítica à estatolatria” de Pio XI, que adverte contra a elevação do Estado – ou, neste caso, do interesse imediato de um Estado poderoso – acima da ordem moral objetiva e dos laços de justiça e solidariedade entre as nações. Não se pode, sob o pretexto de uma crise energética, desconsiderar os imperativos de uma justiça que exige a manutenção da pressão sobre um agressor, especialmente quando a fragilidade do argumento da “quantidade” de petróleo expõe outros possíveis interesses. A decisão parece ilustrar também a crítica de Pio XII à “massificação”, onde a unilateralidade de uma ação, sem o consenso dos corpos intermediários (os aliados), subverte a construção de uma ordem verdadeiramente orgânica e moral.
A ordem dos bens é clara: a paz justa e duradoura, fundada na justiça e na defesa do direito dos povos, tem primazia sobre a estabilidade de preços momentânea. Permitir que o agressor seja reabastecido financeiramente é desviar o olhar do sofrimento dos que padecem sob as bombas financiadas por esse mesmo petróleo. É uma falha na fortaleza de ânimo, a virtude que nos impele a resistir à pressão e a suportar os custos necessários para defender um bem superior, mesmo diante de contrariedades.
O precedente que se abre é perigoso. Se a pressão coletiva pode ser flexibilizada sob a tensão de uma crise que, em parte, foi catalisada pelos próprios atores ocidentais, a mensagem para a Rússia e outros regimes autoritários é de que a intransigência compensa, e que a aliança é maleável. A credibilidade do regime de sanções, um instrumento fundamental da diplomacia e da coerção pacífica, é abalada, e com ela, a esperança de uma resolução justa e duradoura para o conflito.
A verdadeira estabilidade não se compra com barris de petróleo baratos, mas se forja na têmpera da fortaleza moral e se assenta na pedra angular da justiça. Pois é sobre esses fundamentos que se edifica a paz duradoura, não sobre areias movediças de conveniências passageiras.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.