O ar carregado de bravatas e insultos transatlânticos, por mais barulhento que seja, não desfaz de imediato os elos forjados em décadas de história e defesa mútua. Entre a Europa e os Estados Unidos, o que se vende como um “crescente afastamento” é, com mais acuidade, uma complexa renegociação de encargos e expectativas, onde a verborragia esconde uma intrincada teia de dependências que os fatos teimam em revelar.
É compreensível a aversão europeia a novos conflitos distantes. Pressionadas por crises internas como a inflação que aperta o orçamento familiar, a imigração que redefine identidades e a sombra do terrorismo que nunca se afasta, as nações do Velho Continente mostram-se reticentes em destinar recursos e vidas a teatros de guerra que não tocam diretamente sua porta. A recusa em embarcar na aventura militar no Irã, vista como dispendiosa e impopular, reflete um pragmatismo ancorado nas demandas de seus próprios cidadãos. O exemplo de partidos populistas, como a AfD na Alemanha, que evitam o ônus de apoiar ações impopulares de Washington, sublinha este cálculo político interno.
Contudo, a narrativa do “afastamento” é uma meia-verdade que se esvai sob o peso da materialidade. Enquanto diplomatas e líderes vociferam em público, aviões americanos continuam a ser abastecidos em solo britânico, a ilha de Lajes nos Açores portugueses persiste como ponto nevrálgico para operações transatlânticas e a base de Ramstein, na Alemanha, segue coordenando drones e ataques aéreos de longa distância. Esta colaboração subterrânea não é um detalhe marginal; é a própria estrutura que permite a Washington projetar poder, e a sua existência revela que, sob a fumaça das palavras, a aliança ainda respira por meios logísticos vitais. Há uma assimetria de poder que não se desfaz em meros discursos.
A dignidade da comunicação política, essencial para a saúde da ordem moral pública, sofre um baque quando a retórica destemperada suplanta a clareza e o respeito. Os insultos do presidente americano, rememorando episódios como o infeliz tapa em Brigitte Macron ou as desqualificações contra líderes europeus, não são meras trivialidades. Eles corroem a base da confiança, indispensável para a justiça nas relações internacionais. Como São Tomás de Aquino nos ensina sobre a veracidade como virtude devida nas relações humanas, a política exterior não pode prescindir da honestidade, mesmo em meio à divergência. A instabilidade gerada por ameaças inconsistentes sobre a OTAN, ora um “tigre de papel”, ora um escudo, demonstra uma falta de veracidade que prejudica a segurança coletiva.
É neste vácuo de veracidade e na erosão da coesão que se insere a ação de outros atores. Moscou, atenta às fissuras transatlânticas, viu sua “frota fantasma” liberada e sanções temporariamente suspensas no início do conflito iraniano, buscando barganhar sua inteligência. Essa é a consequência direta de uma aliança em desordem: a brecha se abre para aqueles que desejam desestabilizar. A eleição húngara, com a visita do vice-presidente americano J.D. Vance em apoio a Viktor Orbán, que usa a guerra na Ucrânia como plataforma, é mais um sinal de como as tensões globais se espraiam para a política interna de cada nação, testando a solidariedade europeia e o alinhamento de princípios.
Não se trata de um divórcio consumado, mas de um casamento sob forte tensão, onde a infidelidade retórica e a busca por autonomias irrefletidas ameaçam a robustez dos elos. A busca por uma autonomia estratégica europeia é legítima e até desejável, mas não pode ser confundida com um isolamento inconsequente que debilita a frente ocidental contra ameaças revisionistas. A verdadeira justiça e a paz ordenada exigem a coragem de líderes que saibam distinguir entre a necessária renegociação de uma parceria madura e a autodestruição causada por discursos vazios. A “gestão do homem” não é um plano, mas uma tática; o plano, este, exige alicerces morais e estratégicos mais firmes do que meras palavras.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.