Ética, Lucro e Bem Comum: O Dilema da Economia Moderna

Conflitos entre lucro e bem comum: explore como ética, mercado e Estado podem coexistir para uma sociedade justa. Reflexão sobre a dignidade humana e a economia.

🔵 Tese — O Relato Factual

O portal A TARDE, em sua coluna O Carrasco de 9 de março de 2026, reportou diversas situações em diferentes setores, incluindo controvérsias sobre a cobrança no sistema "Kiss & Fly" do Aeroporto de Salvador, a condenação do ex-prefeito de Jacobina, Tiago Dias, pelo Tribunal de Contas da União (TCU), e um reajuste tarifário no Sistema Ferry-Boat. A coluna também abordou práticas de preços em farmácias de manipulação, problemas em serviços de transporte por aplicativo e no metrô, além de outras ocorrências de repercussão.

No Aeroporto de Salvador, a cobrança de R$ 18,00 para quem excede 10 minutos de permanência no meio-fio, referente ao sistema "Kiss & Fly", tem sido objeto de discussão. O CEO da Vinci Airports, Júlio Ribas, afirmou que o sistema possui "anuência de todos". Contudo, documentos exclusivos obtidos pelo Grupo A TARDE sugerem que o projeto de cobrança não recebeu aprovação das autoridades de trânsito. Em paralelo, no mercado de manipulação farmacêutica, uma empresa descrita por sua "singularidade" estaria apresentando orçamentos iniciais que seriam "praticamente o dobro dos praticados por outras farmácias de manipulação", com ajustes subsequentes para equiparar os valores de mercado ao cliente apresentar propostas concorrentes.

Em âmbito judicial, o ex-prefeito de Jacobina, Tiago Dias, foi condenado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) a ressarcir os cofres federais em um montante que "ultrapassa os R$ 2 milhões" e a pagar uma multa adicional de R$ 290 mil. No setor de transportes públicos, o Sistema Ferry-Boat Salvador-Itaparica aplicou um novo reajuste de 3,61% em suas tarifas. Adicionalmente, passageiros do metrô, operado pela antiga CCR Metrô, agora Motiva, registraram escadas rolantes inoperantes nas estações Acesso Norte e Pirajá, resultando em formação de filas nos horários de pico e sem comunicação oficial sobre manutenção.

O serviço de transporte por aplicativo 99 Pop também foi tema de "uma enxurrada de queixas" de usuários, que relatam que motoristas recusam corridas com destinos ou valores considerados desinteressantes. Durante as esperas, a plataforma exibe a frase "Estamos empenhados na busca". Ainda, mensagens do celular pessoal do banqueiro Daniel Vorcaro vieram a público, revelando planos como "espancamento de um jornalista" e a intenção de "moer" uma funcionária, conforme conteúdo sob perícia. No campo ambiental, o ativista soteropolitano Alexander Gomes divulgou um vídeo reconhecendo ter "divulgado informações ambientais equivocadas e pediu desculpas". A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) promoveu desagravo após o episódio, reiterando que "debate é legítimo; linchamento moral, não".

🔴 Antítese — O Contra-Argumento

Os diversos episódios relatados, embora dispersos em setores tão distintos quanto aeroportos, farmácias, transportes e esferas judiciais, convergem para um padrão estrutural de assimetrias de poder e extração de valor que impacta diretamente a coletividade. O que o relato factual deixa implícito é a naturalização de dinâmicas onde o lucro privado e o interesse de poucos se sobrepõem aos direitos coletivos e ao bem-estar social. A precarização de serviços essenciais, a imposição de custos abusivos e a negligência na garantia de qualidade revelam uma falha sistêmica na proteção dos cidadãos e na regulação pública, evidenciando como a lógica de mercado, quando desprovida de um compromisso ético e social, pode gerar profundas desigualdades.

A análise das tarifas controversas em aeroportos, dos reajustes constantes em serviços de ferry-boat e da precariedade no metrô, bem como das denúncias de manipulação de preços em farmácias, demonstra uma clara lógica de transferência de custos e ônus para a população. A financeirização e a concentração de capital, fenômenos tão bem estudados por Thomas Piketty, parecem moldar a maneira como esses serviços são ofertados, priorizando o retorno sobre o capital em detrimento do acesso universal e da qualidade. As falhas de mercado, com informações assimétricas e ausência de concorrência real, apontam para o cenário que Joseph Stiglitz critica veementemente, onde a desregulamentação ou a regulação insuficiente permite a exploração dos consumidores, especialmente os de menor poder aquisitivo.

O descaso com a infraestrutura, exemplificado pelas escadas rolantes inoperantes no metrô, e as alegações de conduta imprópria de figuras com poder econômico e político, como o ex-prefeito condenado ou as mensagens atribuídas ao banqueiro, reiteram uma cultura de desresponsabilização e impunidade. Tais ocorrências reforçam a tese de Jessé Souza sobre as elites brasileiras, que frequentemente agem acima da lei, reproduzindo uma estrutura de privilégios que naturaliza a "subcidadania" para a maioria da população, enquanto poucos desfrutam de uma cidadania plena e, muitas vezes, inatingível pela justiça. O debate sobre linchamento moral, ainda que relevante para a liberdade de expressão, não pode obscurecer a necessidade imperativa de escrutínio sobre as condutas dos detentores de poder.

Diante deste panorama, a construção de uma sociedade mais justa exige a efetiva democratização do acesso a serviços essenciais e a garantia de sua qualidade como direitos fundamentais. É crucial fortalecer as políticas públicas inclusivas, com rigorosa fiscalização e controle sobre as concessões e a atuação dos mercados. Isso implica reorientar a lógica econômica para a redistribuição de riquezas e a priorização do bem-estar social, assegurando a participação popular nas decisões que afetam a vida coletiva. Somente através de uma regulação robusta e de um compromisso inabalável com a equidade será possível reverter a lógica de exploração e construir um modelo de desenvolvimento verdadeiramente inclusivo.

🟢 Síntese — Visão Integrada

Ética, Lucro e Bem Comum: O Dilema da Economia Moderna

A miríade de queixas e controvérsias que pontuam o cotidiano – desde a cobrança questionável no sistema "Kiss & Fly" de um aeroporto, passando pelos reajustes tarifários em serviços essenciais e a manipulação de preços em farmácias, até a conduta reprovável de figuras de poder – não são meros eventos isolados. Eles são sintomas de uma tensão mais profunda, um dilema perene entre a busca legítima pelo lucro e a inalienável exigência de um bem-estar coletivo. Este panorama multifacetado convida-nos a uma reflexão que transcenda a superficialidade das notícias, buscando os princípios que devem ordenar nossa vida em comum.

A Raiz das Controvérsias: Justiça e Equidade

É inegável que, na raiz dessas insatisfações, reside uma preocupação legítima com a justiça e a equidade. A percepção de que a balança do poder pende excessivamente para o lado de poucos, em detrimento da maioria, é uma ferida aberta na confiança social. Quando a qualidade dos serviços essenciais se degrada, quando as regras do jogo parecem mutáveis ou obscurecidas para favorecer determinados interesses, ou quando a impunidade paira sobre atos reprováveis de detentores de poder, a dignidade da pessoa humana é atingida. O sentimento de que os sistemas estão, de alguma forma, aparelhados para a extração de valor sem a devida contrapartida ética e social, como assevera a crítica a dinâmicas de financeirização, ecoa a perplexidade diante de uma modernidade que, como assinalou Alasdair MacIntyre, por vezes carece de um arcabouço moral comum para guiar suas práticas.

Contudo, a tentação de atribuir todos os males a uma única "lógica de mercado" intrinsecamente perversa, propondo soluções que reorientem radicalmente a vida econômica sem a devida prudência, pode nos levar a outros excessos. Reconhecer a assimetria de poder e a necessidade de regulação não significa descartar o papel fundamental da iniciativa privada na geração de riquezas e na oferta de serviços. O que se observa, muitas vezes, não é a falha do mercado em si, mas a falha em enxergá-lo como um meio, e não como um fim último, para o desenvolvimento humano integral. O problema não reside na existência do lucro, mas na forma como é obtido e distribuído, e em sua primazia sobre considerações éticas e sociais.

O Bem Comum como Norte: Filosofia e Prudência

Para superar essa dialética simplista, o caminho se ilumina na sabedoria perene da lei natural e na virtude da prudência, tal como nos ensinam Aristóteles e São Tomás de Aquino. A atividade econômica, em sua essência, não pode dissociar-se de um propósito maior: o bem comum. Este não é a soma de bens individuais, mas as condições de vida social que permitem a cada pessoa e grupo social atingir sua plena realização. A iniciativa privada, os empreendimentos e a busca do lucro são legítimos, e até mesmo virtuosos, quando inseridos em um quadro ético que respeite a dignidade humana, promova a solidariedade e esteja orientado para a justiça distributiva. Como nos lembra Edmund Burke, a liberdade não é licença para tudo, mas a capacidade de agir responsavelmente dentro de uma ordem social estabelecida pela razão e pela tradição.

A aplicação da subsidiariedade revela-se crucial. A regulação estatal tem seu papel insubstituível na garantia de direitos e na coibição de abusos, especialmente em setores essenciais ou onde há claro desequilíbrio de poder. Mas essa regulação deve ser prudente, calibrada, e não sufocar a inovação e a livre iniciativa que também contribuem para o bem comum. Além disso, a responsabilidade não recai apenas sobre o Estado ou grandes corporações, mas se distribui por toda a sociedade. A vigilância dos consumidores, a atuação ética das empresas, a organização da sociedade civil e a integridade de cada cidadão são igualmente determinantes para construir um ambiente de confiança e justiça.

Superando Dicotomias: Mercado, Estado e Sociedade

A superação genuína deste debate não reside, portanto, em uma dicotomia estéril entre mercado ou Estado, mas em uma síntese que os articule virtuosamente. Um mercado que opera com transparência, concorrência leal e responsabilidade social; um Estado que regula com sabedoria, fiscaliza com rigor e promove a igualdade de oportunidades; e uma sociedade civil atuante que exige probidade e engajamento. É preciso resgatar a ética nas relações econômicas e sociais, compreendendo que o valor de um empreendimento não se mede apenas pelo saldo financeiro, mas pelo impacto positivo que gera na vida das pessoas e na comunidade.

Em última análise, a elevação do debate convida-nos a refletir sobre o propósito último de nossa organização social e econômica. Não se trata de uma utopia irrealizável, mas da perseguição constante de um ideal onde a prosperidade material se harmonize com a justiça social e a integridade moral. Somente assim poderemos construir uma sociedade que, para além da mera eficiência ou do lucro, seja verdadeiramente humana e solidária, onde cada cidadão possa florescer em sua plenitude, conforme a dignidade que lhe é intrínseca.

Fonte original: Portal A TARDE

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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