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Estrelas-de-nove-braços na praia: Alerta Ecológico e Responsabilidade

Estrelas-de-nove-braços na Baixada Santista encantam, mas sua aparição é um alerta ecológico. A fragilidade da Luidia senegalensis exige responsabilidade e discernimento ambiental.

🟢 Análise

A praia, espelho líquido da vastidão oceânica, oferece por vezes vislumbres que tanto encantam quanto interpelam. Não raras vezes, a beleza que irrompe à superfície esconde uma mensagem mais complexa, um sinal para além do mero deleite estético. É o que se deu nas praias da Baixada Santista com a aparição das estrelas-de-nove-braços, as Luidia senegalensis, um fenômeno que, embora gerando surpresa e fotografias de “presente” da natureza, talvez nos convoque a uma leitura mais profunda da ordem das coisas.

O assombro dos moradores e turistas é compreensível. Quem não se sentiria tocado pela visão de um animal tão singular, descrito com encantamento por Cláudia Rodrigues e Hyago Mondoni? A Luidia senegalensis, com seus vinte centímetros e nove braços regenerativos, é um organismo delicado, que habita o fundo arenoso a poucos metros de profundidade e ostenta hábitos noturnos. Mas o que fazer quando um ser tão adaptado à discrição e à profundidade emerge à luz do sol, vulnerável na faixa de areia?

Aqui, a beleza se encontra com a fragilidade. A espécie está classificada como vulnerável na lista do Ibama. O biólogo Alex Ribeiro adverte que elas “não apresentam risco para o ser humano”, mas são “muito frágeis, muito sensíveis”, capazes de se desintegrar sob ameaça. A beleza que se exibe pode, portanto, ser o prelúdio de um sofrimento. A questão fundamental não é o que se vê, mas o porquê se vê: qual a causa desse deslocamento atípico, já que seu habitat natural é o fundo do mar, onde se enterram? A notícia, ao focar quase exclusivamente no “encantamento” das testemunhas, elide a urgência de tal questionamento, transformando um possível alerta ecológico em mera curiosidade espetacular.

A Doutrina Social da Igreja nos lembra da nossa responsabilidade para com a Criação e da dignidade da informação pública. Pio XII, ao distinguir “povo” de “massa”, alertava para a necessidade de um discernimento que transcenda a superficialidade das impressões imediatas. Uma sociedade que se contenta com o deleite fugaz de uma imagem sem buscar a verdade subjacente corre o risco de massificar sua percepção, negligenciando a veracidade essencial para o julgamento reto. Não basta ter “olhos para olhar”, como poeticamente sugere uma das testemunhas; é preciso ter compreensão para decifrar os sinais.

É na humildade perante o real que reside a verdadeira sabedoria. A aparição atípica de uma espécie bentônica e vulnerável na areia da praia, desabrigada e exposta, pode não ser um “presente”, mas um chamado à responsabilidade. A pesca de arrasto e o impacto urbano são já ameaças conhecidas a essas estrelas-do-mar. A omissão em investigar as causas de seu afloramento na superfície não é apenas uma falha jornalística, mas um desfavor à verdade ecológica e, em última instância, à própria criatura que se admira. Uma sociedade verdadeiramente madura não se contenta com o brilho efêmero, mas busca a ordem e o sentido.

O real presente seria a capacidade de inquirir, de proteger e de agir com a justiça devida a toda a criação. Que a beleza da estrela-de-nove-braços não seja um véu que encobre a fragilidade, mas um convite à laboriosidade intelectual e moral de quem se recusa a reduzir o mundo a um álbum de fotografias sem legenda.

Fonte original: globo.com

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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