Que espécie de “planejamento detalhado” é este que, ante a primeira labareda de um conflito esperado, encontra-se perplexo e declara a ação defensiva vital — a escolta naval de petroleiros no Estreito de Ormuz — “perigosa demais atualmente”? A alegação de que o governo Trump teria subestimado a disposição iraniana de fechar a garganta do comércio global de petróleo seria uma falha de inteligência banal, não fosse pela retórica que a envolve: a de que a paralisia atual é, na verdade, um “enorme benefício” e uma “dor de curto prazo para ganhos de longo prazo”. Aqui, a dissonância não é apenas estratégica; é de uma desordem moral que clama por clareza.
Não faltam vozes oficiais, da Casa Branca ao Secretário de Energia, a afirmar que “todo o governo está e estava preparado para qualquer possível ação do regime terrorista iraniano”. Mas, como é possível estar preparado para tudo e, ao mesmo tempo, ser forçado a suspender sanções ao petróleo russo ou cogitar flexibilizar uma lei centenária para aliviar a pressão interna dos preços da gasolina? A contradição salta aos olhos. Não se trata de uma estratégia, mas de um gambito imprudente, onde a “dor de curto prazo” é sentida por milhões de famílias em todo o mundo, enquanto os “ganhos de longo prazo” são prometidos a uma elite e à indústria doméstica. Tal cálculo, que transforma a penúria alheia em alavanca estratégica, é um paradoxo que Chesterton, em sua lucidez, certamente desmascararia como a inversão do senso comum e da caridade.
A Doutrina Social da Igreja, alicerçada na lei natural e na reta razão, prega o bem comum como a finalidade última de toda autoridade legítima e de toda ação política. O “bem comum” não é o benefício exclusivo de uma nação ou de um setor econômico, mas “o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos quanto a cada um dos membros, atingir mais plena e facilmente a própria perfeição” (Catecismo da Igreja Católica, 1906). Quando um líder de uma potência mundial declara que a elevação dos preços do petróleo — um fardo imediato para consumidores globais e economias importadoras — representa um “enorme benefício” para seu próprio país, ele não apenas ignora este princípio fundamental, como o subverte. Reduz o sofrimento humano a uma variável no xadrez geopolítico, uma mercadoria no mercado de poder.
A virtude da prudência, cara a São Tomás de Aquino, é a “reta razão no agir” (Summa Theologiae II-II, q. 47, a. 2). Ela exige que os líderes considerem as consequências de seus atos, pesem os meios em relação aos fins e busquem soluções que minimizem o dano e promovam a paz e a justiça. Uma política que assume deliberadamente a disrupção econômica global e a escalada militar como “dor necessária” para um objetivo estratégico distante, sem um plano de mitigação robusto e imediato para a segurança da navegação e o sustento das populações, está longe de ser prudente. A verdade é que a “capacidade assimétrica” do Irã, corretamente apontada como um fator, foi subestimada no que diz respeito ao seu impacto imediato, e a “prontidão” oficial parece mais uma cortina de fumaça para a falta de um plano de contingência para o cenário mais óbvio.
A prioridade declarada de impedir o Irã de obter armas nucleares é, em si, um objetivo legítimo e de grande importância para a segurança global. Contudo, o fim não santifica os meios. Não se pode justificar a desestabilização de rotas vitais de comércio, o sofrimento de milhões de pessoas e o risco de um conflito regional mais amplo com base na premissa de “ganhos de longo prazo” nebulosos e numa visão de “benefício” que serve apenas a interesses parciais. A solidariedade e a subsidiariedade exigem que as nações colaborem para o bem comum, e não que usem as fraquezas mútuas como ferramentas de pressão que precarizam a vida de populações inteiras.
O que se testemunha, na verdade, é uma tentativa de santificar a especulação com o sangue do bom senso. Uma política que se orgulha de infligir “dor de curto prazo” sobre os ombros do mundo para colher frutos de “longo prazo” para si mesma revela uma miopia moral preocupante. O dever de uma autoridade legítima é proteger a vida e promover as condições para que cada pessoa possa prosperar, não apenas os seus próprios. Quando o clamor por escoltas navais é ignorado porque a operação é “perigosa demais”, enquanto se declara que tal perigo é, afinal, um “benefício”, chegamos a um ponto de ilogicidade que só pode ser explicado por uma prioridade cega ao poder e ao ganho, em detrimento da verdade e da caridade.
A liderança verdadeira, aquela que busca a virtude e a reta razão, não joga com o destino de milhões como peças em um tabuleiro de guerra econômica. Ela busca a paz através da justiça, e a prosperidade através da solidariedade. Afirmar que o caos presente é uma etapa necessária para um “mundo pacífico” é como incendiar a casa para afastar os ladrões, sem pensar nos moradores. No fim, a conta da “dor de curto prazo” sempre recai sobre quem menos pode pagar, enquanto os “ganhos de longo prazo” são prometidos, mas raramente universalizados.
A pretensa estratégia do “benefício da dor” é, no fundo, a mais antiga das irresponsabilidades travestida de perspicácia: uma imprudência que se vangloria de seu próprio flagelo.
Fonte original: Valor Econômico
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.