O calendário político, implacável como a maré, anuncia um número portentoso para 2026: R$ 742 bilhões em estímulos econômicos. Um montante que equivale a 5,4% de todo o PIB nacional, projetado para um ano eleitoral, representa um aumento vertiginoso de 139% em relação ao ano anterior. Diante de tal volume, não se trata de uma simples nota de rodapé na planilha orçamentária, mas de um grito estrondoso que ecoa por cada esquina da economia brasileira. A mesa está posta para um banquete que, embora prometendo alívio imediato, levanta a incômoda questão de quem pagará a conta e qual será o sabor da ressaca.
A tese governamental, sustentada pelo Ministério da Fazenda, sugere que essa torrente de dinheiro é uma medida contracíclica, um impulso positivo esperado para um ano de possível desaceleração, agindo em “coordenação com a política monetária”. Contudo, a realidade teima em apresentar uma dissonância preocupante. Com a taxa Selic fincada em 14,75% ao ano — um claro sinal de uma política monetária restritiva, mirando a contenção da inflação —, a injeção massiva de crédito pelo BNDES, a expansão do consignado e a ampliação de isenções fiscais se assemelham a um motor que, ao mesmo tempo, acelera e freia. Como conciliar a “coordenação” com a urgência de segurar os preços, que corroem o salário do trabalhador comum?
É preciso separar a intenção, que se presume boa ao buscar o aquecimento da economia, da retidão dos meios e da prudência das consequências. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII e Pio XI, tem alertado para a tentação da estatolatria, a idolatria de um Estado que se avora como o único e principal provedor de bem-estar, substituindo a iniciativa e a responsabilidade dos corpos intermediários e dos indivíduos. Quando o governo se torna o grande orquestrador dos estímulos, especialmente em ano eleitoral, o risco de distorcer a ordem natural da economia e subverter o fim da ação pública para o ganho político de curto prazo torna-se quase inevitável.
A preocupação legítima dos economistas — de diferentes matizes ideológicos, diga-se de passagem — reside na trajetória da dívida pública, que se projeta acima de 83% do PIB já em 2027. O que se gasta hoje, sem a devida cobertura de produção ou poupança, é um fardo imposto às gerações futuras. Isso é uma questão de justiça intergeracional. É injusto que a conta de um estímulo eleitoral de hoje seja paga pelos filhos e netos, sob a forma de impostos mais altos, juros escorchantes ou serviços públicos precarizados. A virtude da justiça não se contenta com a mera distribuição de benefícios no presente, mas exige a reta ordenação dos bens para o destino comum de todos, ao longo do tempo.
Chesterton, com seu paradoxo mordaz, diria que o progressista moderno é aquele que vive tão fixado no que vai fazer que se esquece do que está fazendo, e ainda mais do que fez. É a loucura lógica de quem insiste em um caminho que já se provou insustentável. O estudo que revisita os governos Dilma e Bolsonaro não é mera crítica partidária; é um diagnóstico histórico: anos eleitorais são frequentemente marcados por um inchaço dos gastos públicos, com a tentativa de “encobrir” o aumento das despesas. Não se trata de fatalismo, mas de observação de um padrão que mina a saúde fiscal do país.
A verdadeira edificação de uma nação não se faz com areia eleitoral, mas com a rocha da honestidade e da responsabilidade. Fortalecer a economia exige um juízo reto, que discerne entre o que é um investimento produtivo de longo prazo e o que é uma fogueira de artifício para iluminar uma campanha. O papel do Estado é criar as condições para que a sociedade floresça, respeitando a subsidiariedade e a livre iniciativa, não usurpar a liberdade econômica ou hipotecar o futuro em nome do presente. Os R$ 742 bilhões, se mal direcionados, podem ser a semente de uma colheita amarga de inflação e instabilidade. Uma nação só prospera quando a governança sábia supera a sedução do poder efêmero.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.