As demarcações, na vida pública como na propriedade, existem para que cada coisa ocupe seu lugar e cumpra sua função sem atropelar a alheia. Quando essas linhas se borram, o edifício da confiança e da legitimidade rui em silêncio. É este o risco que se anuncia na estratégia do governo federal, que, ao alinhar a máquina comunicacional e a composição ministerial para as eleições de 2026, parece confundir o Estado com um comitê de campanha.
Os fatos são claros: o ministro Sidônio Palmeira, da Secom, conclamou os ministros a uma atuação mais ativa na divulgação das ações de governo. O presidente Lula, por sua vez, anunciou a saída de dezoito ministros para desincompatibilização eleitoral, confirmou seu vice para a reeleição e cobrou uma postura “combativa”, abandonando qualquer defensividade. Tal movimentação, embora possa ser justificada pela busca legítima de apoio popular, escancara uma subordinação de órgãos estatais a fins explicitamente partidários. A preocupação legítima não reside na busca por reeleição — inerente às democracias — mas na potencial instrumentalização da estrutura pública para esse fim, usando recursos e autoridade que deveriam servir a todos para promover uma facção.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, com sua defesa da “liberdade ordenada”, passando por Pio XI e sua crítica à “estatolatria”, até Pio XII, que distinguiu o “povo da massa” e clamou por uma “ordem moral pública”, é inequívoca: o Estado não é a propriedade de um partido ou de um governo. Ele existe para o bem comum, para a justiça social, para a salvaguarda da dignidade da pessoa humana. A virtude da justiça exige que a administração pública e seus instrumentos, incluindo a comunicação, mantenham-se distintos dos aparelhos partidários. Desvirtuar a máquina governamental para a propaganda eleitoral, por mais sutil que seja a manobra, é ferir o princípio de que o Estado serve a nação, não a um grupo particular.
A ordem do Presidente para uma postura “combativa” dos ministros, embora possa ser lida como um apelo à proatividade, levanta um questionamento de veracidade e honestidade. A comunicação governamental deve ser um serviço público que informa com transparência sobre as políticas em curso, não uma ferramenta de embate político-eleitoral. O que começa como defesa de ideias pode facilmente degenerar em desqualificação de oponentes e polarização exacerbada, minando o debate público e a capacidade de construir consensos. Pio XII advertiu contra a massificação da sociedade, em que os cidadãos são tratados como meros receptores passivos de mensagens, não como um povo que participa ativamente da vida política por meio do juízo crítico e da informação íntegra. A crítica a um senador da oposição em uma reunião ministerial, por mais que possa ter base em discordâncias políticas, é um sintoma dessa confusão de esferas.
A saída em massa de dezoito ministros, muitos deles com experiência acumulada em suas pastas, para disputar cadeiras no Congresso e no Senado em 2026, coloca em xeque a continuidade e a eficácia das políticas públicas. A gestão do Estado, que exige laboriosidade e dedicação contínua, não pode ser tratada como um trampolim eleitoral descartável. A perda de expertise técnica e a descontinuidade administrativa geram custos reais para a população, que aguarda a efetivação de serviços e projetos, e não apenas uma “virada positiva na comunicação” ou “ganhos de popularidade” descolados dos resultados concretos.
É dever de qualquer governo comunicar suas ações e buscar o apoio popular para suas políticas. Contudo, essa prerrogativa legítima encontra seus limites na integridade das instituições e na honestidade para com o povo. O que se desenha não é um ajuste técnico, mas uma estratégia onde o aparelho do Estado se inclina para a conveniência eleitoral, desrespeitando as demarcações entre o governo, enquanto gestor do comum, e o partido, enquanto ator da disputa política. Sem essa clareza, a própria confiança na imparcialidade da administração é comprometida, e a promessa de combater a “promiscuidade que está na política mundial e brasileira” soa vazia, se não perigosamente invertida.
A defesa da “ordem moral pública” exige que as rédeas do governo não se confundam com as amarras da campanha. O navio do Estado, com sua carga de deveres e responsabilidades, não pode ser pilotado com a bússola de um palanque eleitoral.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.