Escola Técnica Privada: Ternium e o Dever do Estado

A Escola Técnica Ternium, com R$260 milhões, é uma esperança. Mas a iniciativa privada na educação mascara falhas estatais? Análise do papel do Estado e o impacto social.

🟢 Análise

A inauguração de uma escola técnica de vulto, fruto de um investimento privado de R$ 260 milhões por uma gigante do aço na Zona Oeste do Rio, soa, à primeira vista, como a boa-nova que desata o nó górdio da miséria educacional brasileira. O Presidente da República ali, ao lado do presidente do Grupo Techint, celebrando uma obra que promete o “futuro da comunidade”, a “transformação de famílias” e o “desenvolvimento do país”. Eis um espetáculo que comove e, mais que isso, provoca uma onda de esperança palpável para os 384 jovens que já preenchem as carteiras da Escola Técnica Roberto Rocca, em Santa Cruz, e para os 600 previstos até 2027. É inegável o bem concreto que se oferece: formação de ponta em Mecatrônica e Eletromecânica, portas abertas para o mercado, dignidade renovada para quem, de outro modo, veria a perspectiva de um futuro promissor afastar-se no horizonte industrial daquela região.

Os testemunhos emocionados dos alunos e pais, de fato, não deixam margem para cinismo puro. Um jovem que “consegue se ver diferente”, uma mãe que sabe que “apostar em um jovem é apostar em toda a sua família”. Estas não são meras frases de efeito; são o clamor da dignidade humana por ser reconhecida e capacitada. A iniciativa da Ternium, ao preencher uma lacuna educacional gritante em bairros como Santa Cruz, Paciência e Sepetiba, demonstra uma forma de solidariedade concreta, um reconhecimento de que o capital, quando bem direcionado, pode ser um agente de transformação social. É um exercício claro de subsidiariedade, onde a iniciativa privada atua eficazmente onde a mão do Estado, por vezes, se mostra lenta ou deficiente.

No entanto, onde há luz, há também sombra, e um polemista não se furta a perscrutar as entrelinhas da boa vontade. A presença entusiasmada das autoridades máximas do país à inauguração levanta uma pergunta incómoda, mas necessária: o Estado celebra com tanto fervor a ação privada porque a vê como um aliado ou porque ela convenientemente mascara a sua própria falha estrutural? A Doutrina Social da Igreja sempre ensinou que a educação é um dever primário da família e do Estado, este último com a responsabilidade de garantir o acesso universal e de qualidade. Quando a grande corporação se torna o baluarte da educação técnica de excelência, corre-se o risco de que o aplauso fácil sufoque a autocrítica sobre a responsabilidade pública, empurrando o ônus para uma filantropia que, por mais generosa, não substitui o dever de justiça.

Não se trata de negar o mérito do investimento, mas de discernir as motivações e as implicações a longo prazo. Um investimento de R$ 260 milhões na formação de mão de obra altamente qualificada é, simultaneamente, um ato de responsabilidade social e uma estratégia corporativa sagaz. As empresas têm, pela lei natural e pela reta razão, o direito de buscar o lucro, mas esse lucro tem uma hipoteca social. Formar seus futuros engenheiros e técnicos, alinhando o currículo diretamente às necessidades de sua indústria pesada, é uma atitude prudente para a Ternium. A questão é se essa formação é concebida como um fim em si mesmo – o desenvolvimento integral da pessoa humana –, ou se ela se subordina, ainda que inconscientemente, à instrumentalização do jovem como mera engrenagem de um sistema industrial.

A prudência nos manda perguntar: como se garante que essa “ilha de excelência” não apenas prepare excelentes operários para a Ternium, mas cidadãos plenos, capazes de discernir e atuar em um mercado de trabalho mais amplo e, acima de tudo, na vida em sociedade? A autonomia pedagógica da escola deve ser uma bússola inegociável, e a formação oferecida deve transcender as necessidades imediatas da indústria, fomentando a criatividade, o senso crítico e a virtude cívica. O projeto, que se insere no contexto de uma empresa que adquiriu um complexo industrial com histórico de desafios ambientais e sociais, deve ser visto também como parte de uma estratégia de obtenção da “licença social para operar” na região. Isso não desqualifica a iniciativa, mas a situa num plano de responsabilidade mais complexo e duradouro.

Em suma, a Escola Técnica Roberto Rocca é um bem real, uma resposta concreta a uma necessidade premente, e um exemplo de como a iniciativa privada pode e deve contribuir para o bem comum. Ela oferece uma janela de esperança onde antes havia uma parede. Mas é imperativo que esta janela não se feche em si mesma, tornando-se um oásis isolado que apenas reflete a incapacidade do Estado de cumprir seu dever universal. A verdadeira caridade, ensina-nos São Tomás, aperfeiçoa a justiça, não a anula. E a verdadeira educação deve alargar o horizonte do homem, não confiná-lo a um posto de trabalho, por mais digno que seja. Que a semente do bem lançada pela Ternium não sirva para legitimar a preguiça do poder público, mas para despertar sua responsabilidade, sob pena de trocarmos a dignidade universal da educação pelo brilho reluzente de uma fábrica de talentos para poucos. A maior caridade, afinal, não é dar o peixe, nem ensinar a pescar para um único comprador; é garantir que o rio seja de todos.

Fonte original: O Globo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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