Ao ouvir o brado de uma “era de ouro da América”, proclamado com pompa e circunstância num plenário do Congresso, o espírito de um homem católico, formado na verdade do Magistério e na clareza de São Tomás, não pode evitar um exame que vai além do brilho retórico. Não se trata de negar o desejo de prosperidade ou a legítima aspiração por uma nação forte; trata-se de discernir se o fundamento dessa “grandeza” repousa na rocha da verdade ou na areia da ilusão. Chesterton, com sua ironia lúcida, diria que o moderno frequentemente se orgulha de reconstruir a casa sem se importar com a fundação, e é precisamente a fundação, a substância da realidade, que nos convoca ao juízo.
A primeira e mais grave fissura na arquitetura dessa “era de ouro” é a flagrante desconsideração pela verdade factual. Como pode um chefe de Estado declarar solenemente que um cidadão foi “brutalmente assassinado e martirizado” quando este está vivo e ativo, ou que um ditador foi “capturado” e uma “nova presidente” assumiu, quando a realidade política internacional grita o contrário? São Tomás de Aquino nos ensina que o mentir é um vício inerente ao ato de fala, que por natureza visa comunicar a verdade. Quando a autoridade pública, que deveria ser um baluarte da ordem e da razão, se torna a fonte primária de inveracidades, o próprio tecido da sociedade se esgarça, e a confiança, pilar de qualquer bem comum, é irremediavelmente corroída. Não há “renovação na religião, na fé e na crença em Deus” que possa prosperar sobre tal pântano de falsidades, pois Deus é a própria Verdade, e a caridade só pode florescer na verdade.
A desordem moral se aprofunda quando essa retórica se volta para a dignidade da pessoa humana e para as instituições que a protegem. Acusações generalizadas de fraude bilionária contra comunidades minoritárias, a instrumentalização de tragédias pessoais de vítimas de crimes para justificar políticas de linha dura baseadas em generalizações perigosas sobre imigrantes, e a demonização de oponentes políticos como “pró-crime” ou “loucos” são atos que ferem a solidariedade cristã. A Doutrina Social da Igreja é inequívoca: a dignidade de cada indivíduo é sagrada, independentemente de sua origem, e a solidariedade é um dever que nos impede de estigmatizar grupos inteiros. O uso político da dor alheia para incitar a divisão é uma forma perversa de sentimentalismo que ignora a complexidade humana e esmaga a caridade.
Ademais, a própria estrutura da autoridade legítima é posta em xeque quando o Executivo insiste em “estatutos legais alternativos” para contornar decisões “infelizes” da Suprema Corte. Tal atitude revela um desprezo pela subsidiariedade e pela separação de poderes, princípios fundamentais para a reta ordenação de qualquer república. Onde a lei positiva, que deveria derivar da lei natural e visar ao bem comum, é manipulada para satisfazer interesses particulares ou para concentrar poder, abre-se uma brecha para a arbitrariedade e para a idolatria do Estado, que se sobrepõe à razão e à justiça. A prudência, virtude que nos inclina a discernir o verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para alcançá-lo, é a primeira a ser sacrificada em tais arranjos.
As promessas de “guerras encerradas” em meses, de contribuições militares estratosféricas de aliados, ou de um orçamento magicamente equilibrado por uma “guerra contra a fraude” são exageros que distorcem a realidade geopolítica e econômica. Embora a busca pela prosperidade e pela segurança seja um dever governamental, a apresentação de dados econômicos seletivos e a atribuição de crédito unilateral a si mesmo, enquanto se culpa os outros por todas as falhas, impede uma avaliação honesta dos desafios nacionais. A verdadeira liderança, inspirada na reta razão, exige transparência e humildade, admitindo erros e reconhecendo a complexidade das causas e efeitos.
Em suma, a proclamação de uma “era de ouro” não pode ser sustentada por um discurso que flerta abertamente com a inverdade, que polariza a nação e que desrespeita as instituições essenciais para a sua governança. O bem comum não se constrói sobre o engano, mas sobre a rocha inabalável da verdade, da justiça e da caridade. O dever de um líder, à luz da fé, não é apenas gerir o Estado, mas edificar a comunidade política, promovendo a dignidade de cada pessoa e a harmonia social, e para isso, a integridade da palavra é um requisito inegociável.
No fim das contas, a glória de uma nação não reside na grandiloquência das suas proclamações, mas na silenciosa e constante adesão àquilo que é verdadeiramente bom, justo e santo; pois a maior vitória é sempre a da verdade sobre a mentira, e não a de um homem sobre a realidade.
Fonte original: Poder360
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.