A coligação de esquerda do presidente Gustavo Petro, Pacto Histórico, encerrou as eleições legislativas realizadas neste domingo (8) na Colômbia na liderança, consolidando-se como a principal força política no Congresso. Os resultados preliminares foram divulgados após a apuração da maior parte dos votos no país.
Com mais de 97% das urnas contabilizadas, a coalizão governista Pacto Histórico obteve mais de quatro milhões de votos para o Senado, superando com ampla vantagem o Centro Democrático, que é ligado ao ex-presidente Álvaro Uribe e somou cerca de 2,8 milhões de votos. Projeções da imprensa local indicam que o Pacto Histórico deverá conquistar aproximadamente 24 cadeiras no Senado, representando um acréscimo de quatro vagas em relação às eleições de 2022, quando Gustavo Petro foi eleito presidente. O presidente Petro comentou o desempenho nas redes sociais, afirmando que "apenas no pré-contagem e ainda faltando a apuração oficial, é indiscutível que o Pacto venceu amplamente as eleições para o Congresso. No entanto, não é maioria absoluta; a ideia de uma grande Aliança pela Vida e pela prosperidade deve ser mantida".
Petro também anunciou a pauta do próximo período legislativo, declarando que "no próximo período do atual Congresso serão apresentados projetos de lei de reformas sociais; a reforma da saúde é uma prioridade". No total, as eleições contaram com mais de três mil candidatos disputando 285 vagas no Legislativo, sendo 102 no Senado e 183 na Câmara dos Representantes, com cerca de 41,2 milhões de colombianos aptos a votar.
No mesmo dia, foram realizadas consultas interpartidárias para definir candidatos à presidência, com mais de seis milhões de eleitores participando das primárias. A senadora Paloma Valencia foi escolhida no campo conservador, enquanto a ex-prefeita de Bogotá Claudia López foi indicada pelo bloco de centro. Na Frente da Vida, de centro-esquerda, o senador Roy Barreras venceu as primárias. O senador Iván Cepeda, candidato pelo Pacto Histórico, afirmou que "hoje começa nossa segunda etapa. Com uma bancada forte e comprometida, iniciaremos uma nova fase de transformações". O processo eleitoral foi acompanhado por observadores internacionais, com a missão da União Europeia destacando a transparência e a presença de cerca de um milhão de testemunhas eleitorais registradas, segundo o chefe da missão, o eurodeputado espanhol Esteban González Pons.
A vitória da coalizão Pacto Histórico nas eleições legislativas colombianas, embora celebrada como um avanço democrático, convida a uma análise mais profunda sobre o que realmente significa a conquista de cadeiras no Congresso em um país marcado por desigualdades históricas e estruturas de poder resilientes. A retórica de "transformações" e "reformas sociais", como a da saúde, precisa ser confrontada com a realidade da capacidade de um governo de esquerda de desmantelar sistemas que beneficiam minorias privilegiadas em detrimento da maioria da população. O relato factual, ao focar nos números eleitorais, tende a velar as complexas dinâmicas de poder que persistem para além das urnas, onde a disputa por hegemonia é contínua e não se encerra com um pleito.
A eleição de uma bancada robusta que apoie a agenda de Gustavo Petro é um passo crucial, mas a menção de que a coalizão "não é maioria absoluta" já sinaliza o intrincado cenário político que se avizinha. Conforme nos ensina Jessé Souza, a política em sociedades periféricas muitas vezes mascara uma luta mais profunda entre elites estabelecidas e forças que buscam uma real democratização do acesso a direitos e recursos. A resistência às reformas sociais, especialmente a da saúde, não virá apenas de partidos de oposição, mas de interesses corporativos e de grupos econômicos que historicamente lucram com a precarização dos serviços públicos e a privatização de bens essenciais, mantendo as assimetrias de poder intactas.
Para as parcelas mais vulneráveis da população colombiana, a promessa de reformas representa a esperança de ver ampliadas suas capacidades de vida, um conceito central para Amartya Sen. A democratização do acesso à saúde, por exemplo, não é apenas uma questão de política pública, mas um imperativo ético para garantir que todos os cidadãos possuam as liberdades substantivas para perseguir seus próprios projetos de vida, independentemente de sua origem social ou condição econômica. A ausência de uma maioria absoluta, no entanto, coloca um desafio significativo à implementação dessas políticas inclusivas, que frequentemente exigem um rearranjo redistributivo de recursos e poder.
Diante desse quadro, a ideia de uma "grande Aliança pela Vida e pela prosperidade" deve ir além das negociações de gabinete e se traduzir em mecanismos efetivos de participação popular e controle social. As alternativas progressistas não se limitam a aprovar leis, mas a construir um novo pacto social que promova uma redistribuição de renda e oportunidades que desmonte as desigualdades estruturais. Isso requer não apenas reformas legislativas, mas um profundo engajamento cívico para que as vozes dos historicamente marginalizados sejam amplificadas e suas necessidades sejam centralizadas nas políticas públicas, garantindo que o avanço eleitoral se converta em emancipação social concreta.
Eleições na Colômbia: Voto e o Desafio da Transformação Social
As recentes eleições legislativas na Colômbia, que consolidaram a força do Pacto Histórico no Congresso, oferecem-nos um ensejo oportuno para uma reflexão mais profunda sobre a complexa relação entre o veredito das urnas e a aspiração por uma verdadeira transformação social. Enquanto os números eleitorais celebram a vontade popular e a robustez do processo democrático, paira a questão de como essa vitória se traduzirá em avanço substancial para uma nação marcada por históricas desigualdades, um desafio que transcende a mera aritmética política.
Urnas e a Busca por Equidade: O Legado de Amartya Sen
É legítima a esperança que se deposita em um governo que promete reformas sociais, em particular na saúde, visando a uma maior equidade e acesso universal. Tal anseio, de fato, ecoa uma busca por uma ampliação das "capacidades de vida" dos cidadãos, no sentido que o economista e filósofo Amartya Sen tão bem articulou, ou seja, a liberdade substantiva para que cada indivíduo possa florescer plenamente. Contudo, a crítica que aponta para as "estruturas de poder resilientes" e os "interesses corporativos" que historicamente resistem a tais mudanças também carrega uma preocupação válida. Afinal, a política não se esgota no voto; ela se manifesta na difícil arte de negociar, persuadir e implementar políticas que, de fato, alterem a realidade em favor do bem-estar comum, muitas vezes confrontando forças que se beneficiam do status quo.
A Prudência Aristotélica na Condução das Reformas
Aqui, a sabedoria perene de Aristóteles nos ilumina. A prudência (phrónesis), enquanto virtude intelectual e moral, é a bússola essencial do homem de Estado. Ela não reside na inação reacionária, nem na impulsividade revolucionária, mas no discernimento do caminho justo e oportuno para a ação. As reformas, por mais necessárias que sejam, devem ser conduzidas com um olhar atento à realidade concreta, evitando excessos ideológicos que desconsiderem a complexidade das interações sociais e econômicas. O bem comum não se alcança por decreto, mas pela construção de consensos e pela aplicação gradual de políticas que respeitem a dignidade de cada pessoa e a ordem natural da sociedade.
Doutrina Social da Igreja: Princípios para a Justiça
Neste ponto, a Doutrina Social da Igreja, com o pensamento de São Tomás de Aquino em sua fundação, oferece um arcabouço sólido para a superação deste dilema. A lei natural nos lembra que a busca pela justiça social deve estar ancorada em princípios universais, como a dignidade intrínseca da pessoa humana e o destino universal dos bens, que orientam a função social da propriedade e a necessidade de solidariedade. A redistribuição de renda e oportunidades, embora crucial, deve ser pautada pela subsidiariedade, permitindo que as comunidades e os indivíduos participem ativamente na construção de seu próprio destino, e não apenas aguardem a provisão estatal. O Estado tem o dever de garantir o bem comum e a justiça distributiva, mas sem esmagar a iniciativa privada ou as associações intermediárias.
Rumo à "Grande Aliança": Solidariedade e Bem Comum
A "grande Aliança pela Vida e pela prosperidade", aludida pelo presidente eleito, se traduzida em um pacto de solidariedade entre todos os setores da sociedade, pode de fato constituir o caminho para a superação dialética deste embate. Não se trata de uma simples conciliação entre forças antagônicas, mas de uma elevação do debate para o plano dos princípios que regem uma sociedade justa: a dignidade humana, o bem comum e a prudência. Isso significa engajar não apenas as esferas governamentais, mas também as famílias, as comunidades, as empresas e as organizações civis na construção de um sistema de saúde mais equitativo e eficiente, por exemplo, que realmente sirva a todos os colombianos.
Conclusão: Navegando entre o Ideal e o Possível
Em suma, as eleições colombianas nos recordam que o progresso genuíno não se mede apenas pela contagem de votos, mas pela capacidade de uma nação de transformar aspirações legítimas em realidades concretas, sempre sob a luz da razão reta e do bem comum. A verdadeira tarefa política é navegar as tensões entre o ideal e o possível, entre a necessidade de mudança e a importância da estabilidade, construindo pontes e fortalecendo os laços de solidariedade. É nessa busca constante pela justiça, guiada pela prudência e pelo respeito à lei natural, que uma sociedade pode verdadeiramente florescer, elevando o debate para além da mera disputa partidária e em direção à plenitude da vida humana para todos.
Fonte original: Revista Fórum
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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