O tabuleiro político catarinense, à primeira vista, parece inclinado com uma força gravitacional inabalável para um só lado. Anunciam-se alianças de peso, com um governador buscando a reeleição ao lado de um prefeito de rara aprovação em sua capital econômica, e a injeção de nomes de ressonância nacional na disputa pelo Senado. Mas a política, como a vida, raramente segue o roteiro traçado com tinta tão definitiva. O que se apresenta como um desfile de força pode, paradoxalmente, revelar-se uma marcha sobre minas, onde a busca pela pureza ideológica implode a necessária prudência política.
A realidade factual desenha um cenário de aparente solidez para o atual governo. Jorginho Mello (PL) consolida sua pré-candidatura à reeleição, trazendo consigo Adriano Silva (Novo), prefeito de Joinville, cuja performance eleitoral beira a unanimidade. O ex-presidente Bolsonaro, com sua indicação de Carlos Bolsonaro (PL) para uma das vagas ao Senado, reforça uma base eleitoral historicamente fiel em Santa Catarina, um estado onde a inclinação à direita é um fato inquestionável, comprovado por votações expressivas em ciclos eleitorais anteriores. A presença massiva do PL no legislativo catarinense, com deputados estaduais e federais em número considerável, complementa o quadro de uma força política coesa e dominante, à qual se esperaria adesão por gravidade.
Contudo, a reta razão nos adverte que a coesão ideológica, sem a virtude da prudência e o respeito à subsidiariedade, pode se transformar em fissura. A aparente solidez do projeto de reeleição de Jorginho Mello, com a estratégia de uma “chapa pura” do PL para o Senado – com Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni – já começa a cobrar seu preço. O MDB, partido com vasta capilaridade municipal e que há muito compunha a base do governo, anuncia seu desembarque. Mais grave ainda, a exclusão de nomes como o senador Esperidião Amin (PP), uma figura de inegável história e peso político em Santa Catarina, não apenas aliena um aliado tradicional, mas ignora a riqueza da experiência e a necessidade de composições plurais em nome do bem comum. Não se governa um estado complexo apenas com fidelidade ideológica, mas com a capacidade de aglutinar talentos e representações diversas.
É aqui que a idolatria da força, ou da ideologia purificada, trai a própria finalidade da política, que é a de ordenar a sociedade em busca do bem comum. São Tomás de Aquino nos lembra que a lei humana deve ser ordenada à lei natural e à virtude, e que a prudência é a principal das virtudes cardeais na arte de governar. Que prudência há em prescindir de aliados históricos, com forte enraizamento local, em favor de uma imposição que, por vezes, carece de legitimidade orgânica no solo catarinense? A indicação de um nome como Carlos Bolsonaro, com poucas raízes políticas no estado, é um claro exemplo de como a lógica de cima para baixo, vinda de esferas de poder nacionais, pode desprezar as dinâmicas locais e a dignidade dos atores políticos que construíram o estado. A subsidiariedade, princípio basilar da Doutrina Social da Igreja, exige que as decisões sejam tomadas o mais próximo possível das pessoas afetadas, e não por decreto de cúpulas partidárias distantes.
A busca por uma “chapa pura” revela uma tentação perigosa: a de confundir unidade com uniformidade, e força com isolamento. A verdadeira força política reside na capacidade de construir pontes, de integrar diferentes visões e de forjar consensos que permitam a governabilidade de longo prazo. A fragmentação da direita, antes percebida como um monolito, é um risco real. O desembarque do MDB e a provável desarticulação com o PP abrem espaços para outras frentes, seja a centro-direita de João Rodrigues (PSD), um adversário que, apesar de “incógnita” para os analistas, possui inegável força local, seja para a frente de esquerda, que, apesar de sua batalha histórica em um estado conservador, vê na divisão do adversário uma oportunidade para “fugir do script tradicional” e apresentar-se como uma alternativa de coesão.
A eleição de 2026, portanto, longe de ser um jogo de cartas marcadas, apresenta-se como um intrincado xadrez onde os movimentos mais audaciosos podem ser também os mais autodestrutivos. A polarização, que alguns preveem como benéfica para o campo da direita, pode, ao contrário, acentuar suas próprias divisões internas, diluindo os votos e energizando os adversários. A verdade é que a governança de um estado não se sustenta em projeções ideológicas ou transferências automáticas de prestígio nacional, mas na capacidade concreta de dialogar, de compor, de respeitar a diversidade das bases e de priorizar o bem comum acima dos interesses de partido ou de família.
No fim das contas, a política que se pretende forte pela uniformidade, pode ser fraca pela sua fragilidade interna. A lição que se impõe é que nem toda aparente consolidação é sinal de verdadeira estabilidade, e que a pureza ideológica, quando destituída de prudência e solidariedade, é o mais rápido caminho para a desagregação. Afinal, a unidade que exclui não é unidade, é apenas solidão em números.
Fonte original: nsctotal.com.br
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.