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EJA Online: O Custo Oculto do Atalho na Educação Básica

Parceria para EJA online promete inclusão, mas a coluna questiona o custo real. Analisamos riscos de exclusão digital, precarização do saber e a urgência do investimento integral na educação pública.

🟢 Análise

A lacuna da educação básica não é um mero número estatístico de um censo distante; é a história de 48 milhões de brasileiros cuja fome de saber clama por um alimento mais substancial do que um mero atalho para um diploma. É com este horizonte de carência e esperança que se apresenta a parceria entre a Fundação Roberto Marinho e o Ministério do Trabalho e Emprego, buscando ampliar o acesso ao curso SEJA e ao Encceja. A intenção é nobre: oferecer a jovens e adultos a chance de concluir a educação básica, com a promessa de “soluções que já mostraram resultado” e um “investimento que retorna muito mais”. Afinal, como sublinha o ministro Luiz Marinho, é mais barato investir em educação do que arcar com os custos sociais da exclusão.

Os fatos atestam um esforço notável: 30 mil inscritos em 2025 no SEJA, com 67% de sucesso entre os que realizaram o exame, números que, à primeira vista, acendem uma luz no túnel para um problema de proporções continentais. A proposta de usar a capilaridade do MTE, via Carteira de Trabalho Digital e Sistema Nacional de Emprego (Sine), para difundir o curso on-line e gratuito parece uma estratégia inteligente e ágil para enfrentar a urgência do desafio. João Alegria, secretário-geral da Fundação, reforça a necessidade de levar soluções eficazes a todos, especialmente pelos canais públicos que fazem parte da vida das pessoas.

Contudo, a benevolência da intenção não pode cegar o discernimento para as armadilhas de um atalho excessivamente sedutor. A Doutrina Social da Igreja, alicerçada na subsidiariedade de Pio XI e na distinção entre povo e massa de Pio XII, adverte que o Estado tem o dever de promover o bem comum, mas não de suplantar ou desresponsabilizar-se da construção de estruturas integrais e orgânicas. Priorizar a difusão massiva de uma solução on-line, por mais bem-sucedida que se mostre em um recorte, arrisca desviar a atenção e os recursos de um investimento robusto e multifacetado na Educação de Jovens e Adultos (EJA) pública, presencial e adaptada à diversidade do país.

A justiça exige que a porta da educação seja acessível a todos, e não apenas aos que já possuem o privilégio do acesso digital. Qual o plano para os milhões de brasileiros sem conectividade, sem equipamentos adequados ou sem o letramento digital necessário para navegar uma plataforma on-line? A insistência na solução digital corre o risco de aprofundar a exclusão para os mais vulneráveis, ao invés de superá-la. E a veracidade nos convida a inquirir: os 67% de sucesso referem-se ao universo total de inscritos, ou apenas àqueles que persistiram até o exame, mascarando uma possível alta taxa de evasão? Que tipo de “acompanhamento de professores” pode ser sustentado com qualidade quando a expectativa é alcançar “dezenas de milhares” de alunos simultaneamente, sem que se dilua a pedagogia em mera instrução para um teste?

A educação, em sua plenitude, é muito mais do que a aquisição de um certificado de competências. É a formação integral da pessoa humana, a capacitação para a cidadania plena, a abertura a horizontes de cultura e criticidade que transcendem a mera preparação para o mercado de trabalho. Quando o Estado canaliza sua vasta infraestrutura para difundir uma solução de uma fundação privada, sem uma transparência detalhada sobre custos, governança e mecanismos de avaliação independentes, surge a sombra da assimetria de poder e o risco de precarizar a concepção do saber em favor de uma mera credencial.

O verdadeiro compromisso com o futuro do Brasil passa pela edificação de alicerces sólidos para a educação, um cultivo paciente e generoso no solo fértil de cada comunidade. É preciso investir na EJA pública, fortalecer suas estruturas, garantir seu caráter presencial onde for essencial, e complementar, com prudência, as soluções digitais onde elas realmente servem como ponte, e não como muro. A ingenuidade de que a “gratuidade” on-line resolve por si só a complexidade da exclusão é um erro que a experiência já nos ensinou a evitar. A magnanimidade da nação não se mede pela velocidade com que entrega diplomas, mas pela solidez e equidade com que nutre a inteligência e a alma de cada um de seus filhos.

Fonte original: Tribuna do Sertão

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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