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Ecoturismo Brasil: Gestão Frágil, Lucros e Justiça Social

Ecoturismo no Brasil celebra belezas, mas esconde gestão frágil e impactos reais. A coluna expõe o 'greenwashing' e a urgência de governança transparente e justiça social para sustentabilidade genuína.

🟢 Análise

A vastidão do Brasil, com suas chapadas de cristais e águas que espelham o céu, suas matas densas e ilhas paradisíacas, é um convite à admiração. O ecoturismo surge como a promessa de um pacto: desfrutar sem depredar, maravilhar-se e, ao mesmo tempo, proteger. Há uma beleza inegável nos roteiros que desvendam a Chapada Diamantina ou os Lençóis, a Chapada dos Veadeiros ou as águas de Nobres, a costa de Ilhabela ou os recifes de Fernando de Noronha. É legítimo que se celebre a beleza da criação e o engenho humano em fruir dela.

Contudo, a celebração desacompanhada da veracidade esvazia o pacto de seu real sentido. O discurso que pinta cada destino como um “paraíso”, com “excelente infraestrutura” e crescimento em “pleno vapor”, mas convenientemente omite os alicerces frágeis de sua gestão, não é mero entusiasmo; é um verniz perigoso sobre a realidade. A beleza da natureza, por mais que nos encante, não se sustenta por si só frente ao impacto de um fluxo turístico crescente. A ausência de dados concretos sobre a capacidade de carga dos destinos, sobre os planos de gestão de resíduos ou sobre o reinvestimento direto na conservação ecoa um perigoso “greenwashing” – uma lavagem verde que alivia a consciência sem mover a ação.

A justiça, uma das virtudes cardeais, exige mais do que a simples apropriação estética da paisagem. Ela demanda que os benefícios da atividade turística sejam equitativamente distribuídos e que os encargos da preservação não recaiam apenas sobre os ombros dos mais fracos. Onde estão os planos que garantem a participação das comunidades locais no planejamento? Como se evita a gentrificação que expulsa o nativo em nome do turista? A beleza natural, que é um bem comum, não pode ser privatizada na exploração e coletivizada nos custos e impactos. As “perguntas incômodas” não são meras picuinhas; são o clamor da ordem que se busca na criação.

A Doutrina Social da Igreja nos lembra que a propriedade, mesmo a natural, possui uma função social. Não se trata de negar o desenvolvimento, mas de ordená-lo. O que vale para a terra cultivada, vale para o ecossistema frágil: sua gestão deve visar o bem de todos, e não a mera acumulação de lucros para poucos, nem a satisfação efêmera de massas desatentas. A lógica da subsidiariedade, por exemplo, deveria operar fortalecendo os corpos intermediários e as comunidades locais na gestão de seu patrimônio, e não permitindo que a grandiosidade da propaganda obscureça a urgência de uma governança robusta e transparente.

A tentação é reduzir a sustentabilidade a um adjetivo decorativo, a uma chancela que se presume, mas não se fiscaliza. Um ecoturismo “consciente e sustentável” é um ideal que se constrói com esforço contínuo, com métricas claras, com responsabilidade compartilhada e com a humildade de reconhecer os limites impostos pela natureza. Transformar um ecossistema em um “paraíso” de consumo sem um plano de mitigação de impactos é, paradoxalmente, pavimentar o caminho para sua ruína.

Não basta, portanto, apontar para as cachoeiras cristalinas e os poços azuis. É preciso ir além do postal e do discurso polido, para o chão duro da administração e para a rede intrincada das relações sociais e ecológicas. O verdadeiro zelo pela criação não se mede em postais coloridos, mas na sobriedade da gestão e na justiça com que se governa o que nos foi dado.

Fonte original: O Cafezinho

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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