Quando quase quatro em cada dez alunos da educação a distância (EAD) abandonam a graduação antes de obter o diploma, e um quarto o faz no ensino presencial, não estamos diante de um fenômeno isolado, mas de um silencioso naufrágio estrutural na paisagem do ensino superior brasileiro. Os números falam por si: 41,6% de evasão na EAD em 2024, onde 50,7% das matrículas estão concentradas, e um impressionante 68,1% de desistência acumulada na modalidade EAD no ciclo 2020-2024. Esses dados, provenientes do Instituto Semesp, que representa as mantenedoras do setor, escancaram uma realidade que vai além das estatísticas de crescimento de matrículas.
É inegável que a expansão da EAD, especialmente na rede privada, democratizou o acesso. Milhões de brasileiros, antes à margem do ensino superior, encontram nessa modalidade a única via para conciliar estudo com as prementes responsabilidades de trabalho e família – como os 67,3% de alunos da EAD com mais de 25 anos atestam. Seria reducionismo simplista taxar toda desistência como fracasso absoluto, ignorando ganhos incrementais de conhecimento ou a reorientação de carreiras. Para esses, a EAD não é uma alternativa, mas a tábua de salvação num mar de restrições. E nisto, há um elemento de justiça social inegável: dar oportunidade onde antes não havia.
Contudo, a verdade não se dobra ao mero bom intento. A Doutrina Social da Igreja, ao defender a dignidade da pessoa humana, não pode aceitar que a “democratização” se confunda com a massificação superficial ou com a promessa vazia de um diploma que nunca chega. Pio XII, ao distinguir o “povo” da “massa”, advertia contra a despersonalização e a diluição do senso de pertencimento e propósito em estruturas desmesuradas. Aqui, a concentração de 55,1% das matrículas em apenas 1,2% das instituições privadas, muitas delas de “mega porte” com taxas de desistência acumulada de quase 70%, sugere um modelo que prioriza a escala em detrimento da sustentação do percurso individual do aluno. Não se trata apenas de oferecer uma porta de entrada; trata-se de garantir um caminho que leve a algum lugar.
A justiça exige que o investimento de tempo, esperança e, muitas vezes, sacrifício financeiro dos estudantes encontre uma correspondência real na qualidade da formação e na probabilidade de conclusão. A veracidade nos impele a questionar se o “sucesso” da expansão de matrículas não está a mascarar um custo social elevado em sonhos interrompidos e recursos desperdiçados. A lógica de Chesterton nos lembra que, muitas vezes, é na paradoxal simplicidade que se encontra a sanidade: expandir o acesso sem fortalecer as fundações pode, paradoxalmente, gerar uma nova forma de exclusão – a exclusão do sucesso formativo pleno.
Não se trata de voltar a um elitismo insustentável, mas de edificar um sistema que, pela subsidiariedade, fortaleça os corpos intermediários e as instituições que efetivamente acompanham o estudante, e que, pela laboriosidade, invistam em metodologias e estruturas de apoio que compreendam a realidade multifacetada desses alunos. É preciso, como defendia Pio XI, que as estruturas da sociedade sejam erguidas não por uma fria “estatolatria” de números, mas por uma justiça social que reconheça o valor integral da pessoa, em sua capacidade de iniciar e, sobretudo, de concluir sua jornada.
A alta evasão não é um acidente, mas um sintoma de que a expansão nem sempre foi acompanhada da sustentação necessária. A pergunta incômoda permanece: de que servem milhões de portas abertas se a maioria delas leva a corredores sem saída? A edificação de um ensino superior verdadeiramente inclusivo e justo passa pela coragem de reavaliar não só o acesso, mas a permanência e a qualidade da formação, para que o estudante não seja um mero número a evadir, mas uma pessoa a formar. É preciso que o mapa não aponte apenas o início da jornada, mas um destino viável para todos os que a empreendem.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.