No campo da disputa pública que antecede o embate no gramado, as palavras lançadas por dirigentes de futebol muitas vezes trazem consigo mais carga tática do que anseio sincero pela verdade. Quando Anderson Barros, do Palmeiras, responde a Rui Costa, do São Paulo, em um embate sobre arbitragem às vésperas de um clássico, assistimos a um espetáculo que, embora familiar, urge ser julgado pela reta razão. A reclamação sobre a qualidade do apito não é, em si, um mal; a integridade do jogo e a transparência nas decisões são preocupações legítimas que ressoam entre torcedores e clubes. A própria Confederação Brasileira de Futebol, afinal, já admitiu erros pontuais, validando a necessidade de questionamento e aprimoramento.
Contudo, a forma como o debate se desenrola merece escrutínio. O que se observa, não raro, é uma retórica que beira a performática, onde a busca pela justiça se transmuta em manobra estratégica. Anderson Barros, em sua intervenção, eleva-se para condenar a “postura antiga” de pressionar a arbitragem, classificando-a como “oportunista” e irresponsável. Clama por serenidade, equilíbrio e pela evolução do futebol. É uma defesa do ideal, aparentemente irretocável.
Não fosse, porém, a notável contradição interna. Em meio ao seu apelo por um discurso mais elevado, o próprio Barros se ocupa em listar, com precisão cirúrgica, uma série de “erros crassos” que teriam prejudicado o Palmeiras em confrontos passados – seja o lance de 2022 na Copa do Brasil, seja a expulsão de Pulgar não marcada na final da Libertadores do ano passado. Essa não é a sanidade que Chesterton louvaria, mas o paradoxo daquele que, ao advertir sobre o perigo do fogo, atiça as chamas da fogueira alheia com gasolina própria. Condena a reclamação para, em seguida, exercê-la, deslegitimando o adversário enquanto se reserva o direito de fazer exatamente o que condena.
Aqui, o ensinamento de Pio XII sobre a comunicação responsável e a ordem moral pública ressoa com particular clareza. O espaço público, mesmo no âmbito esportivo, não é um mero ringue de propaganda, mas um fórum onde a veracidade deveria prevalecer. Quando a fala de um dirigente visa menos o aprimoramento genuíno e mais a desqualificação do oponente, subvertendo a crítica à condição de arma tática, a dignidade do debate se esvai. O que se busca, em vez de uma competição mais justa para todos, é uma vantagem retórica que despressurize o próprio flanco e transfira o ônus da acusação para o rival.
Esta hipocrisia estratégica tem um custo real para a justiça do esporte. Ao invés de fortalecer os árbitros, ela os coloca sob uma pressão ainda mais insidiosa: a de discernir quando uma reclamação é “legítima” e quando é “oportunista” segundo a conveniência do narrador da vez. Isso não constrói um ambiente de colaboração para a evolução, como Barros alega desejar, mas um campo minado onde a confiança é minada e a percepção de integridade é corroída. A arbitragem, assim, não se torna uma variável menor, como se afirma, mas o bode expiatório e o palco para a guerra de narrativas.
A veracidade exige que se reconheça a queixa legítima, seja ela feita por quem for. A justiça exige que se trate as regras e suas violações com a mesma régua para todos, sem o filtro da conveniência tática. A verdadeira evolução do futebol não virá da tentativa de silenciar o adversário por meio de acusações de ‘postura antiga’, mas do compromisso sincero de todos os envolvidos – clubes, dirigentes e CBF – em edificar uma cultura de honestidade intelectual e diálogo construtivo.
É preciso, pois, discernir a retórica estratégica da busca leal pela verdade e pela justiça. O jogo não se decide apenas com a bola nos pés, mas também com a integridade das palavras na arena pública. Que o debate sobre o apito não vire um mero palco para a conveniência, mas um chamado à responsabilidade partilhada pela vida comum do esporte.
Fonte original: ESPN.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.