Dinastias Políticas em Sergipe: A Persistência do Poder

Por que Sergipe elege sempre os mesmos sobrenomes? Explore como as oligarquias familiares dominam a política local, seus impactos na democracia e o desafio para a renovação. Uma reflexão sobre poder e justiça.

🟢 Análise

Há uma estranha simetria no solo político de Sergipe, um fenômeno que, sob o verniz da democracia moderna, revela a persistência de algo ancestral. Não é um segredo, mas um fato palpável: a cada pleito, as urnas consagram não apenas indivíduos, mas linhagens, sobrenomes que se estendem por décadas, tecendo uma complexa tapeçaria de poder familiar que desafia a retórica da “nova política”. Como pode uma sociedade, livre para escolher, reiteradamente se ver representada por uma oligarquia de clãs? É a pergunta incômoda que se impõe, e que a fé e a razão convidam a perscrutar sob a luz do bem comum.

Os fatos são irrefutáveis. Em 2022, seis dos oito deputados federais eleitos em Sergipe tinham laços diretos com agrupamentos familiares. Metade dos 24 deputados estaduais seguia a mesma lógica. As dinastias dos Franco, Amorim, Reis/Ribeiro, Moura, Valadares, Mitidieri, e o grupo ascendente de Valmir de Francisquinho, são testemunhos de uma continuidade que remonta, em alguns casos, aos anos 1940. A família Franco, por exemplo, não apenas colecionou mandatos – senador, governador, prefeitos – como também consolidou um poder econômico e midiático, controlando terras e fundando a primeira TV do estado. Esse acúmulo de capital político, financeiro e simbólico é uma vantagem estrutural que molda o campo de batalha eleitoral antes mesmo do primeiro voto ser depositado.

Não se pode, contudo, desconsiderar a agência do eleitor. A voz contrária, com razão, aponta que as eleições são disputadas e os resultados, ainda que apertados, refletem uma escolha popular. A vitória de Fábio Mitidieri, um nome de família política, contra Rogério Carvalho, do PT, sem vínculos dinásticos diretos, por uma margem de apenas 3,4% no segundo turno de 2022, é um indício de que a competição é real e o voto, em última instância, é exercido. O próprio Valmir de Francisquinho, com sua trajetória ascendente e popularidade estrondosa antes da inelegibilidade, demonstra que o mérito individual e o apelo carismático podem, sim, furar a barreira das oligarquias históricas. A democracia, mesmo com suas imperfeições, ainda pulsa.

Todavia, reconhecer a existência do voto livre não é o mesmo que validar um sistema que restringe as opções por uma desproporcional assimetria de poder. A Doutrina Social da Igreja, ao defender a dignidade da pessoa humana e a participação de todos na vida pública, clama por um campo de jogo mais nivelado. O problema moral não reside na existência de famílias com tradição política – afinal, o serviço público pode, e por vezes deve, ser transmitido como uma vocação –, mas na concentração de recursos e influência que impede uma verdadeira concorrência, minando a subsidiariedade e a solidariedade. Quando o acesso a bases eleitorais consolidadas, o reconhecimento de nome familiar e os vínculos com setores econômicos e de mídia se tornam os principais trunfos, o processo eleitoral corre o risco de virar um rito de passagem para um clube fechado, em vez de uma genuína busca pelos mais virtuosos e aptos a servir o bem comum.

São Tomás de Aquino nos lembra que a lei, e por extensão o sistema político, deve visar à felicidade da comunidade. Mas que felicidade pode advir de um sistema onde a “renovação” se dá primariamente entre primos e netos, enquanto talentos emergentes e novas perspectivas lutam para sequer serem ouvidos? A persistência dessas estruturas, apesar da fragmentação partidária e da era digital, levanta uma questão de prudência e justiça: o reconhecimento de nome, embora não seja ilegítimo em si, não pode sobrepujar a capacidade de discernir propostas, méritos e, sobretudo, a dedicação incondicional ao bem público. Um sistema que favorece a herança do poder sobre a virtude do serviço, a linhagem sobre a capacidade, a tradição sobre a verdadeira representação, está em desordem moral.

Não se trata de atacar pessoas ou famílias, mas de apontar um vício público que desvia a política de seu fim último. A idolatria do Estado, ou neste caso, a idolatria de uma certa classe política, cega-nos para a necessidade de um escrutínio rigoroso e de uma exigência constante de prestação de contas. A força de um sistema político reside não em sua capacidade de perpetuar os mesmos nomes, mas em sua abertura para o novo, para a diversidade de talentos e para a verdadeira voz do povo. Sergipe, como o Brasil, precisa de políticos, não de dinastas.

Afinal, uma democracia que elege sempre os mesmos sobrenomes não é tanto um sistema de livre escolha, mas uma triste adaptação do povo àquilo que lhe é dado a escolher.

Fonte original: ND

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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