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Lava-Pés e Diabetes: O Desafio do Cuidado Além da Campanha

A Campanha Lava-Pés do SUS para pés diabéticos, embora elogiável, levanta um debate crucial. O artigo questiona se ações pontuais são suficientes para o cuidado contínuo e estrutural que o diabetes exige no Brasil.

🟢 Análise

Há ações que, por sua natureza e simbolismo, carregam uma carga de esperança e boa vontade. Há outras que, por sua continuidade e discrição, edificam a ordem e o cuidado. A saúde, em sua essência, não se sustenta de lampejos festivos, mas de uma vigília ininterrupta que se tece no cotidiano. O lançamento da campanha “Lava-Pés: cuidado com os pés diabéticos” pelo Ministério da Saúde, em Recife, é um gesto de visibilidade que evoca a caridade e a atenção devida aos vulneráveis, buscando prevenir as amputações que o diabetes, uma doença que aflige 12,9% dos brasileiros e cresceu 134% desde 2006, torna uma triste realidade.

Ninguém contesta a boa intenção por trás da mobilização que reúne profissionais, estudantes, instituições religiosas e lideranças comunitárias. O gesto do “lava-pés”, como lembrou o secretário Felipe Proenço, busca resgatar a humildade e a empatia no atendimento, elementos cruciais para a adesão ao autocuidado. A professora Helena Lopes de Almeida, de 80 anos, expressou bem o sentimento de “amor, cuidado e esperança” que tal iniciativa pode gerar. O SUS, com seus R$ 586 milhões anuais para o tratamento do diabetes e a inclusão de medicamentos como a dapagliflozina, demonstra um esforço em prover recursos essenciais. Em seu potencial de catalisador, a campanha pode, de fato, engajar e conscientizar para a urgência da detecção precoce e do autocuidado.

Contudo, é preciso que a sanidade da razão, à luz da Doutrina Social da Igreja, resista à tentação de ver na campanha pontual a solução para um desafio estrutural. A verdadeira questão que se impõe à justiça social não é o brilho momentâneo de uma semana de ações, mas a solidez de um sistema que garante acesso equitativo e contínuo ao cuidado. O risco aqui é que o simbolismo, por mais nobre, mascare a necessidade de investimentos consistentes e de longo prazo na atenção primária, capaz de alcançar as populações mais vulneráveis em áreas remotas, onde as barreiras de acesso não se resolvem com um mutirão, mas com uma rede perene.

O crescimento avassalador do diabetes — um aumento de 134% em menos de duas décadas — não é apenas uma estatística, mas o sintoma de um adoecimento da vida comum, que tem raízes em fatores socioeconômicos e ambientais. Focar nas complicações, embora urgente, sem atacar as causas profundas e sem fortalecer a base do cuidado, seria como tentar conter uma enchente com baldes, em vez de cuidar da nascente e do leito do rio. A laboriosidade e a responsabilidade da gestão pública exigem que as iniciativas não sejam meros “saltos de campanha”, mas parte de uma estratégia de continuidade institucional que se ramifique por todo o tecido social, através de corpos intermediários e da atenção capilarizada.

É aí que o princípio da subsidiariedade, tão caro à nossa tradição, se manifesta: o Estado central tem seu papel, mas não pode esmagar ou substituir a iniciativa que brota do particular e do próximo. A campanha “Lava-Pés” precisa ser um complemento orgânico às Unidades Básicas de Saúde e às equipes de saúde da família, não um substituto reluzente que desvia a atenção da necessidade de fortificar estas estruturas fundamentais. A eficácia duradoura reside em capacitar os profissionais da linha de frente, em garantir o fluxo contínuo de recursos e informações, e em integrar a ação comunitária ao trabalho diário dos centros de saúde, para que o cuidado não seja um evento, mas um estado permanente.

Não basta acender uma fogueira festiva no alto da colina por poucos dias; o verdadeiro zelo reside em manter as chamas acesas na lareira de cada casa, dia após dia, para aquecer a vida comum e salvaguardar a saúde de todos.

Fonte original: Sair do Brasil

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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