No vasto mapa da saúde pública, onde cada ponto representa uma vida e cada linha traça um caminho de cuidado, desponta uma realidade paradoxal: a da doença que se esconde à plena vista. No coração da Bahia, estima-se que 8% a 9% da população conviva com o diabetes, e o número mais chocante é que muitos desconhecem o próprio diagnóstico. Este dado não é um mero número estatístico; é a denúncia silenciosa de uma fragilidade intrínseca na teia do cuidado, uma falha inicial que compromete todo o restante da estrutura que, no papel, se anuncia robusta e abrangente.
De fato, o Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais e municipais, como a de Barreiras, desenham um modelo exemplar. A Atenção Primária, com suas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e equipes de saúde da família — 31 delas em Barreiras —, é a porta de entrada para a prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento contínuo. Medicamentos essenciais, como insulinas humanas NPH e regular, metformina, glibenclamida e glicazida, são ofertados gratuitamente. Desde fevereiro de 2025, o Programa Farmácia Popular do Brasil ampliou essa gratuidade para 100% dos insumos e remédios para diabetes, disponíveis em UBS, farmácias municipais e credenciadas. A iniciativa de uma transição piloto para a insulina glargina em 2026, embora gradual, aponta para uma atualização de terapias.
Contudo, a mera existência de programas e a declaração de ofertas não se traduzem automaticamente em saúde efetiva para o cidadão. A alta prevalência de diagnósticos desconhecidos na Bahia lança uma sombra sobre a capacidade real da atenção primária em sua função primordial: a detecção precoce e o rastreamento ativo. Não basta esperar que o paciente procure a UBS; é preciso ir ao encontro da doença onde ela se manifesta, especialmente entre os mais vulneráveis, aqueles com menor letramento em saúde ou que enfrentam barreiras geográficas e sociais. A justiça na saúde não é apenas a oferta formal, mas a garantia de que o benefício chegue a quem dele precisa, de modo equitativo.
As preocupações se adensam ao se observar a instabilidade operacional: o aviso de que as unidades credenciadas do Farmácia Popular podem mudar diariamente, ou a menção de “ajustes temporários de atendimento” em farmácias municipais. Para o paciente crônico, cuja vida depende da continuidade ininterrupta de medicamentos, tal variabilidade é mais que um inconveniente; é um obstáculo que pode pôr em risco a adesão ao tratamento e, em última instância, a própria vida. E enquanto se fala em piloto para terapias mais modernas, a ausência de prazos e critérios claros para a universalização da insulina glargina, por exemplo, sugere uma hierarquia de acesso, onde a vanguarda do tratamento ainda não é um direito pleno para todos.
A Doutrina Social da Igreja nos lembra do princípio da subsidiariedade: o que pode ser feito por uma instância menor, mais próxima ao cidadão, não deve ser avocato por uma maior. Na saúde, isso significa fortalecer de modo concreto a atenção primária, munindo-a não apenas de protocolos, mas de capacidade real de busca ativa, educação em saúde de qualidade e gestão eficiente da cadeia de medicamentos. Pio XII já advertia sobre os perigos de tratar o “povo” como uma “massa” anônima, reduzida a números em painéis oficiais. O sistema precisa ver a pessoa, o indivíduo que adoece e que, por vezes, desconhece sua própria enfermidade, exigindo mais do que uma estrutura passiva.
É preciso um esforço de responsabilidade e veracidade que vá além da comunicação oficial. O compromisso com a saúde pública exige que os gestores enfrentem o abismo entre o que é “ofertado” no papel e o que é “acessado” na realidade do cidadão. Um sistema que se vangloria de sua rede capilar, mas permite que uma fatia tão grande da população permaneça invisível à detecção precoce de uma doença crônica, age com uma lógica que desafia o senso mais elementar. A verdadeira eficácia não está na descrição dos meios, mas nos resultados concretos que transformam o mapa da saúde em um território de bem-estar para todos.
A questão do diabetes no SUS é, portanto, um lembrete vívido de que a magnanimidade de uma política pública reside não apenas na sua concepção universal, mas na diligência e na justiça com que ela se dobra sobre cada vida que dela necessita, sem deixar que a burocracia ou a inação lancem sombras sobre a dignidade da pessoa humana. Um sistema de saúde verdadeiramente universal e equitativo não se contenta em ser uma promessa distante, mas um cuidado efetivo e presente.
Fonte original: Fala Barreiras
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.