A cronologia de um feito público, quando bem observada, revela mais que datas; desvela a honestidade da atribuição, a temperança de quem relata e a justiça intrínseca ao reconhecimento. No Acre, estado que guarda em seu solo vasta porção da floresta amazônica, os dados recentes sobre a redução do desmatamento são, à primeira vista, um alento e um testemunho do compromisso brasileiro com o Acordo de Paris. O Brasil, que em 2016 ratificou o pacto de reduzir em até 67% as emissões de gases de efeito estufa até 2035 e eliminar o desmatamento ilegal até 2030, tem no Acre um laboratório de políticas ambientais que clamam por sucesso. De fato, após um preocupante aumento de 73% no desmatamento entre 2018 e 2021, o estado celebrou uma “queda contínua a partir de 2023”, chegando a superar em 43% a meta de controle para 2025, com 320 km² desmatados contra os 572 km² projetados.
A notícia é positiva, um raio de esperança na árdua tarefa de salvaguardar o bioma. Entretanto, a narrativa oficial se enreda numa imprecisão temporal que compromete a veracidade e, consequentemente, a plena justiça na avaliação dos méritos. Alega-se que a notável redução do desmatamento que se inicia em 2023 é fruto direto de “medidas estruturais” como a articulação interinstitucional e a criação de sistemas como o SIMAMC (Sistema Integrado de Meio Ambiente e Mudança do Clima) e o CIGMA (Centro Integrado de Inteligência, Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental). Ocorre que estes últimos, estruturas cruciais de governança e monitoramento, foram formalmente estabelecidos em 29 de dezembro de 2025. Como então poderiam ser a causa principal de uma queda que teve seu início dois anos antes?
Essa inconsistência não é um mero detalhe burocrático; é uma questão de comunicação responsável e de honestidade intelectual. O Estado, como bem ensinou Pio XII ao distinguir o “povo” da “massa”, tem o dever de informar com clareza e sem manipulação, cultivando a confiança pública sobre bases sólidas. A redução do desmatamento a partir de 2023 no Acre, mais do que um efeito exclusivo de arranjos estaduais ainda por nascer, insere-se num contexto mais amplo. Coincide com uma mudança na política ambiental federal, que a partir daquele ano restabeleceu a fiscalização e o combate ao desmatamento em nível nacional, impactando toda a Amazônia e, por conseguinte, o Acre. Desvincular a ação local da conjuntura maior seria um exercício de autoatribuição que negligencia a interdependência sistêmica.
Ademais, a sustentabilidade de programas como o ISA Carbono, concebido pela Lei nº 2.308/2010 e voltado à regulação de serviços ambientais, depende não apenas de sua existência formal, mas de sua capacidade de garantir a “adicionalidade” da redução do desmatamento. Ou seja, de que a floresta é preservada *por causa* do programa, e não por outros fatores. E, crucialmente, de que os recursos captados por tais mecanismos cheguem de forma transparente e equitativa às populações tradicionais, ribeirinhos, extrativistas e povos indígenas, conferindo-lhes não meramente o papel de beneficiários passivos, mas de agentes ativos com dignidade e poder de decisão sobre seu próprio destino e o uso da terra. A propriedade, como ensinava Leão XIII, possui uma função social, e sua gestão deve sempre visar ao bem comum, com particular atenção aos mais vulneráveis.
As conquistas do Acre na luta contra o desmatamento são reais e dignas de louvor. O PPCDQ atualizado, a atuação do IMC junto à sociedade civil, o ZEE orientando o desenvolvimento: são todos passos na direção certa. Mas a excelência da ação não dispensa a retidão do relato. A tarefa de proteger a criação é monumental e exige o esforço de muitos, em diversas esferas. Reconhecer as múltiplas causas e atribuir os méritos com precisão, inclusive a contribuição da política federal e a participação ativa das comunidades locais, é um ato de justiça. E essa busca incessante pela veracidade é, em si, um pilar inabalável para a construção de um futuro verdadeiramente sustentável.
A floresta se salva com ações reais e relato honesto, pois a verdade é o primeiro solo da esperança.
Fonte original: O Alto Acre
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.