Quando o solo que deveria ser alicerce firme se revela areia movediça, a catástrofe que se anuncia não é apenas um capricho do céu, mas a dura fatura de omissões terrenas. O Brasil, de fato, é uma tapeçaria de climas e geografias, e enfrenta uma sequência preocupante de fenômenos meteorológicos intensos – de enchentes devastadoras e deslizamentos a secas prolongadas e ondas de calor. Mais de 10 milhões de brasileiros vivem em áreas de risco, uma cifra que, por si só, já denuncia a face mais cruel de nossa vulnerabilidade. Mas aqui reside o paradoxo: a verdadeira crise não é primariamente a do céu que se agita, e sim a do chão que trai, fruto de uma desordem social e territorial preexistente.
A narrativa que insiste em colocar a “adaptação climática” no centro do palco, enquanto ignora as falhas estruturais mais elementares, padece de uma loucura lógica que Chesterton talvez risse de tão óbvia. A vulnerabilidade de 31% da população – morando em casas despreparadas para o calor, tempestades ou alagamentos – não é uma consequência exclusiva de eventos climáticos; é a manifestação visível de décadas de ausência de políticas habitacionais, de saneamento básico e de planejamento urbano eficaz. As casas não estão em áreas de risco apenas porque o clima mudou; estão lá porque a má gestão territorial, a especulação imobiliária e a negligência governamental as empurraram para a beira do abismo. A crise climática apenas acende o rastilho de uma bomba social já armada.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, ensina que a família é anterior ao Estado e que a propriedade tem uma função social. Não há justiça em deixar milhões de famílias sem um lar seguro, digno e protegido dos elementos básicos da natureza. É uma questão de justiça distributiva, que exige do Estado e da sociedade a responsabilidade de garantir o acesso à moradia digna e à infraestrutura essencial, como saneamento básico. A mera “adaptação climática”, sem o investimento maciço na erradicação da pobreza e na reforma urbana e rural, corre o risco de ser um paliativo caro para uma doença que exige cura de raiz. Os bilhões desembolsados em indenizações – e a baixa cobertura de seguros, que atinge apenas 10% dos eventos no Brasil contra 30% no mundo – são a prova contábil de que o custo da prevenção é sempre menor que o da calamidade.
A ideia de “racismo ambiental e climático”, embora carregada de retórica, aponta para uma verdade incômoda: as comunidades marginalizadas são as primeiras a sentir o impacto da desordem natural e da desordem social. Combatê-lo não se resume a discursos, mas a ações concretas que redistribuam recursos, poder e acesso a uma vida digna. A prioridade não pode ser o mapeamento de riscos climáticos em si, mas o fortalecimento dos corpos intermediários – as comunidades locais, os municípios – para que possam gerir seus próprios destinos, com o apoio técnico e financeiro da União e dos Estados, conforme o princípio da subsidiariedade defendido por Pio XI. Não se trata de esmagar o que está perto com soluções centralizadas e tecnocráticas, mas de edificar uma ordem social que parta das necessidades concretas do povo, e não de abstrações.
Há uma assimetria gritante quando, ao mesmo tempo em que se lamentam os impactos climáticos, a agropecuária brasileira celebra um crescimento robusto, muitas vezes favorecido por “condições climáticas” pontuais. Isso suscita a pergunta: que tipo de desenvolvimento estamos promovendo? Um que desconsidera as consequências de longo prazo para o bem-estar integral da população e do meio ambiente? A agricultura, vital para nossa economia, precisa estar integrada a uma visão de uso da terra que respeite os ecossistemas e não aumente a vulnerabilidade de outras frentes. A via para a prosperidade não pode ser aquela que deixa milhões à mercê da próxima chuva, da próxima seca.
O país avançou, em 2024, com uma política de adaptação climática. Mas a real medida de seu sucesso não estará nos documentos ou nas boas intenções, e sim na firmeza do solo onde vivem os mais vulneráveis. A construção de um futuro mais seguro e justo para o Brasil exige, antes de tudo, o reconhecimento de que os desastres climáticos são, muitas vezes, apenas o espelho de desastres sociais muito mais antigos e persistentes. A resposta deve começar por ali, pela edificação de uma vida comum que se assente não sobre a areia movediça da negligência, mas sobre o alicerce da dignidade humana e da justiça permanente.
Fonte original: ND
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.