Uma nova pesquisa Datafolha, divulgada em 10 de março de 2026, indica que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) lideram a disputa pelo Senado em São Paulo. O levantamento sugere que possíveis candidatos do campo progressista pontuam melhor do que os da direita. A pesquisa foi realizada entre 3 e 5 de março, entrevistando 1.608 pessoas com 16 anos ou mais em 71 municípios do estado de São Paulo.
No primeiro cenário testado pelo instituto, sem a inclusão de Geraldo Alckmin, Fernando Haddad apareceu na frente com 30% das intenções de voto. Outros ministros do governo Lula o seguiram: Simone Tebet (MDB) com 25%, Márcio França (PSB) com 20%, Marina Silva (Rede) com 18%, e Guilherme Boulos (PSOL) com 14%. Entre os pré-candidatos da direita, os deputados federais Guilherme Derrite (PP) e Ricardo Salles (Novo) registraram 14% e 13% das intenções, respectivamente. Paulinho da Força (Solidariedade) obteve 10%, Rosana Valle (PL) 7%, e Gil Diniz (PL) 3%. Para a primeira vaga, 4% dos entrevistados disseram não saber, e 15% pretendem votar em branco ou nulo. Para a segunda vaga, 6% estão indecisos e 21% declararam voto em branco ou nulo.
Um segundo cenário, testado sem Fernando Haddad, apontou Geraldo Alckmin na liderança com 31% das intenções de voto para o Senado. Ele foi seguido por Simone Tebet com 25%, Marina Silva com 21%, Márcio França com 20%, e Guilherme Boulos com 15%. Nesse cenário, Ricardo Salles e Guilherme Derrite apareceram ambos com 13%, Paulinho da Força com 9%, Rosana Valle com 6%, e Gil Diniz com 3%. Para a primeira vaga, 4% estavam indecisos, e 14% pretendiam votar em branco ou nulo. Para a segunda vaga, 6% estavam indecisos, e 20% declararam voto em branco ou nulo. O Datafolha esclarece que "os resultados de uma pesquisa não são prognósticos, ou seja, não pretendem antecipar o que sairá das urnas. Eles formam um retrato da opinião dos entrevistados no momento em que os pesquisadores foram a campo." A margem de erro máxima para a amostra total é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro do nível de confiança de 95%.
O levantamento foi realizado antes de Fernando Haddad definir, na semana de publicação da pesquisa, que deixará a pasta da Fazenda para ser candidato ao Governo de São Paulo. A Folha noticiou que "o mais provável é que as ministras Marina Silva (Meio Ambiente) e Simone Tebet (Planejamento) sejam as candidatas do campo lulista ao Senado, por São Paulo, na chapa de Haddad." No campo da direita, "a primeira vaga já está consolidada com Derrite, que foi secretário do governo Tarcísio e conta com seu apoio," enquanto a segunda vaga segue em discussão. Em 2026, o eleitor votará em dois nomes para o Senado, que será renovado em dois terços. A pesquisa está registrada no TSE sob os números BR-06798/2026 e SP-04136/2026.
A pesquisa Datafolha sobre a disputa pelo Senado em São Paulo, embora tecnicamente precisa em sua amostragem, oferece um "retrato" que, paradoxalmente, obscurece mais do que revela sobre a substância da política no estado. Ao focar exclusivamente em intenções de voto para nomes já estabelecidos no cenário nacional ou estadual, o levantamento reproduz a lógica da política como um espetáculo de personalidades, desconsiderando a análise crítica das estruturas que perpetuam certas hegemonias. O que se manifesta como "indecisão" ou "voto branco/nulo" para parcelas significativas do eleitorado pode, na verdade, ser um sintoma de um esgotamento com as opções apresentadas, as quais, muitas vezes, não endereçam as demandas mais urgentes da população em termos de direitos coletivos e equidade.
A predominância de ministros e figuras já consagradas — tanto do campo dito progressista quanto da direita — na liderança das intenções de voto para o Senado em São Paulo aponta para uma cristalização das assimetrias de poder no sistema político brasileiro. Para além da mera contagem de votos, essa dinâmica reforça a percepção de que o acesso a cargos eletivos de projeção nacional está reservado a um grupo restrito, frequentemente vinculado a estruturas partidárias com grande capital político e financeiro, o que pode ser interpretado como uma forma de oligopolização da política. Como apontaria Jessé Souza em suas análises sobre a elite brasileira, essa configuração não é acidental, mas reflexo de um sistema que naturaliza privilégios e dificulta a ascensão de novas lideranças que não se alinhem a esses arranjos pré-estabelecidos. Os resultados da pesquisa, assim, não apenas mapeiam uma corrida eleitoral, mas expõem a dificuldade de democratização real do espaço político, onde a representatividade das múltiplas identidades e necessidades da sociedade permanece limitada aos contornos da elite.
A pesquisa sugere uma polarização entre "campo lulista" e "direita", mas essa dicotomia pode mascarar a homogeneidade de certas agendas e o silenciamento de vozes que buscam rupturas mais profundas com o status quo. A alta taxa de votos brancos e nulos e de indecisos, que chega a somar quase um quarto do eleitorado para a segunda vaga, não pode ser vista apenas como apatia, mas sim como um indicativo de uma crise de representação. Boaventura de Sousa Santos argumentaria que essa crise é inerente a modelos de democracia liberal que priorizam o sufrágio sobre a participação substantiva e a construção de "epistemologias do Sul", ou seja, saberes e experiências de grupos subalternizados. As pautas dos mais vulneráveis, as demandas por direitos coletivos e a crítica às desigualdades estruturais frequentemente ficam marginalizadas em disputas eleitorais centradas em figuras com alta visibilidade midiática e acesso privilegiado a recursos de campanha, perpetuando um ciclo onde quem detém o poder da palavra e da visibilidade é quem tem maiores chances de ser eleito.
Para além da mera disputa eleitoral, a construção de uma democracia mais robusta e equitativa em São Paulo e no Brasil exige um compromisso com a democratização das estruturas políticas e econômicas. Isso implica em políticas públicas inclusivas que incentivem a participação popular em todas as esferas, a reforma política para reduzir a influência do poder econômico nas eleições e a promoção de plataformas que deem voz às comunidades historicamente marginalizadas. A verdadeira equidade não se restringe à alternância de poder entre grupos dominantes, mas à redistribuição de oportunidades e à garantia de direitos fundamentais que permitam a emergência de lideranças autênticas e programáticas, capazes de transformar radicalmente a realidade social e econômica do estado, com foco na redução da vulnerabilidade social.
A recente pesquisa Datafolha sobre a disputa pelo Senado em São Paulo, ao mapear as intenções de voto e projetar cenários eleitorais, oferece um retrato das inclinações políticas num dado momento, revelando a proeminência de figuras já estabelecidas na vida pública. Contudo, ir além da mera contagem de preferências e perscrutar o que tais números realmente significam para a saúde da polis é um exercício de prudência que a filosofia nos convida a empreender. Os dados, com sua aparente objetividade, podem nos levar a uma reflexão mais profunda sobre a qualidade da nossa representação e os verdadeiros anseios de uma sociedade complexa.
Desafios da Representação e o Voto Indeciso
É inegável que a concentração das intenções de voto em personalidades com longo histórico político, sejam elas do campo dito progressista ou da direita, aponta para uma cristalização das dinâmicas de poder que, muitas vezes, dificultam a emergência de novas lideranças e a renovação de ideias. A preocupação da Antítese, ao assinalar que a política corre o risco de se tornar um espetáculo de personalidades, desconsiderando as demandas estruturais da população, merece ser ouvida. O expressivo contingente de eleitores indecisos ou propensos ao voto branco e nulo não pode ser sumariamente interpretado como mera apatia; ele pode, como bem observou Alexis de Tocqueville ao analisar a democracia americana, ser um sintoma de um desencanto com as opções oferecidas, de uma sensação de que as vozes e necessidades mais elementares não encontram eco nos discursos prevalentes, ou mesmo de uma conformidade silenciosa que empobrece o debate público.
A Prudência Aristotélica e a Reforma Democrática
No entanto, a tentação de culpar as estruturas democráticas ou de buscar rupturas radicais, sem um discernimento cuidadoso, pode ser um excesso. A política, para Aristóteles, é a arte de bem governar a cidade, visando ao bem viver dos cidadãos. Isso exige a virtude da prudência (phrónesis), que orienta a ação reta e o justo meio, evitando tanto a inércia quanto a revolução por si mesma. Desprezar o processo eleitoral ou considerá-lo intrinsecamente viciado sem um compromisso com sua reforma gradual e ética seria desconsiderar o valor intrínseco de uma das formas mais concretas de participação cívica, mesmo que imperfeita. A crise de representação, se existente, não se resolve apenas com a crítica, mas com a elevação da qualidade do engajamento de todos.
O Bem Comum na Tradição Tomista: Além da Popularidade
A verdadeira superação deste dilema passa pelo firme compromisso com o bem comum, princípio caro à tradição tomista. São Tomás de Aquino ensina que a lei e a autoridade existem para ordenar a sociedade para esse fim, que não é a soma dos bens individuais, mas as condições sociais que permitem a cada pessoa e grupo atingir sua perfeição. Assim, o mérito de um candidato ou de uma plataforma não pode ser medido apenas pela popularidade ou pela identificação ideológica, mas por sua capacidade real de promover a dignidade humana, a justiça social, a solidariedade e a subsidiariedade. Um sistema político saudável não se contenta em apenas registrar votos, mas deve criar canais para que as necessidades dos mais vulneráveis sejam não apenas ouvidas, mas efetivamente endereçadas por políticas públicas eficazes e transparentes.
Virtude Política: O Papel de Líderes e Cidadãos
A prudência política, nesse contexto, exige que tanto os governantes quanto os cidadãos busquem a virtude em suas ações. Os líderes devem transcender a mera ambição pessoal e a busca por poder, dedicando-se ao serviço autêntico da comunidade. Os eleitores, por sua vez, têm a responsabilidade moral de ir além da polarização superficial e do desinteresse, avaliando os candidatos com base em princípios éticos e em seu potencial de contribuir para o desenvolvimento humano integral. Não se trata de uma ingenuidade em relação às disputas de poder, mas de uma recusa em aceitar que a política seja apenas isso. A Doutrina Social da Igreja nos lembra da função social da propriedade e da economia, ressaltando que todos os bens e instituições devem servir à pessoa humana e ao bem de todos, especialmente dos menos favorecidos.
Para uma Democracia que Floresce: Engajamento Cívico
Para que a democracia paulista, e brasileira, floresça verdadeiramente, é preciso que a participação política se aprofunde. Isso significa ir além do voto periódico para incluir o engajamento cívico contínuo, a formação de associações intermediárias que fortalecem a sociedade civil, e um debate público pautado pela razão e pelo respeito mútuo. Os cidadãos devem exigir de seus representantes não apenas a capacidade de vencer eleições, mas a integridade moral, a competência administrativa e um compromisso inabalável com a construção de uma sociedade mais justa e solidária, onde a liberdade se exerça com responsabilidade e a lei natural inspire a legislação positiva.
Conclusão: O Termômetro da Política e a Cura para a Sociedade
Em suma, as pesquisas eleitorais são como termômetros que medem a febre do momento, mas não diagnosticam a causa profunda da enfermidade nem oferecem a cura. A verdadeira cura para as tensões inerentes à política democrática reside na constante busca pelo bem comum, na renovação da virtude cívica e na aplicação da prudência em todas as es esferas da vida pública. É por meio de uma reflexão que eleva o olhar do que é meramente factual para o que é fundamentalmente moral e teleológico que se pode transcender as polarizações e construir uma república mais robusta e humana.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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