A corrente elétrica que acende as luzes de uma pequena casa no Maine é a mesma que corre, em megawatts titânicos, para o interior dos data centers que alimentam a nuvem digital. Este contraste, entre o lar e o megacomputador, não é apenas uma questão de escala, mas um dilema de gestão e discernimento que agora se impõe aos legisladores americanos, e por contaminação, aos de outros países, como o Brasil. A proposta do Maine, que pende da sanção da governadora Janet Mills, de proibir temporariamente a construção de novos data centers acima de 20 megawatts, revela a angústia legítima diante de um avanço tecnológico que, sem a devida ordenação, pode converter-se em voracidade insustentável.
É inegável a preocupação com o consumo desmedido. Data centers, especialmente os de inteligência artificial, demandam volumes colossais de energia, equivalentes a dezenas de milhares de residências. O Maine, já com tarifas elevadas, enfrenta o risco real de ver esses custos repassados ao consumidor comum, somado à pressão sobre seus recursos hídricos, vitais para o resfriamento dessas máquinas que, ironicamente, prometem resolver tantos outros problemas. A deputada Melanie Sachs está correta ao apontar a necessidade de uma gestão responsável da terra e da água; a propriedade, afinal, tem uma função social inalienável que não permite o uso arbitrário em detrimento da vida comum e do futuro das gerações.
Contudo, a proibição, por mais bem intencionada que seja, pode soar como uma solução de simplicidade perigosa. Em um estado com apenas nove data centers em operação, erguer uma moratória é uma medida desproporcional. É mais fácil impor um freio do que desenhar uma rota. O juízo reto exige mais do que a suspensão de um problema: pede a construção de soluções. A lógica da proibição temporária arrisca transformar a prudência em paralisia, afastando investimentos e privando a população de empregos qualificados e de uma infraestrutura digital robusta, essencial para o desenvolvimento econômico e a competitividade do estado no século XXI.
O que se exige não é o laissez-faire cego, mas a aplicação da subsidiariedade, que valoriza a ação das comunidades locais na proteção de seus bens, sem que o Estado centralize e esmague a iniciativa. É possível e necessário estabelecer um arcabouço regulatório que condicione a instalação de data centers a padrões rigorosos de eficiência energética, uso de fontes renováveis e reuso de água. O Brasil, que assiste a investimentos maciços como o da ByteDance em Caucaia, com seus cinco data centers e R$ 580 bilhões previstos, demonstra que o desenvolvimento pode ser atraído sob condições de controle e responsabilidade. Não se trata de escolher entre progresso e meio ambiente, mas de forjar um pacto entre ambos, onde a justiça social distribua os encargos e benefícios do avanço tecnológico de forma equitativa.
Um Estado não pode cair na tentação da estatolatria, que vê na proibição o remédio universal para todas as tensões entre capital e natureza. O caminho de um conselho para “propor medidas” pode ser útil, mas se não for guiado por uma visão de futuro que integre o legítimo desenvolvimento econômico com a preservação ambiental, a moratória será apenas um adiamento, não uma solução. A laboriosidade e a responsabilidade exigem que os entes públicos e privados trabalhem juntos para que a inovação seja um instrumento de elevação humana e não de degradação da casa comum.
A verdadeira magnanimidade não reside em refrear o ímpeto do progresso, mas em governá-lo com sabedoria, discernindo o que é legítimo do que é predatório. O dilema dos data centers, portanto, não se resolve com a retração, mas com a exigência de inteligência na regulação. Não basta apontar o problema; é preciso construir a ponte que leva ao futuro sem deserto nem distopia, onde a tecnologia sirva ao homem e não o contrário.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.