Assumir o leme de um transatlântico em pleno mar revolto, com o horizonte borrado pela névoa da incerteza, é o batismo de fogo de Josh D’Amaro na proa da Disney. Sua primeira semana no comando não foi uma suave navegação em águas calmas, mas uma colisão em cadeia: um megacontrato de IA desfeito, um parceiro de games em crise e um escândalo moral que afundou uma temporada inteira de reality show. O valor envolvido — US$ 1 bilhão no acordo de IA, mais de US$ 60 milhões na temporada cancelada — não é trivial, e as implicações reverberam desde os bolsos dos acionistas até a reputação que a marca ainda pretende ostentar.
É legítima a preocupação com a volatilidade dos investimentos em tecnologias de ponta, como a inteligência artificial, e com a instabilidade de mercados digitais tão efêmeros quanto o dos videogames. Há um custo tangível para a perda de empregos na Epic Games, parceira de peso da Disney, e para os cofres da empresa com o naufrágio de uma produção televisiva. A questão transcende a mera gestão de ativos; ela toca a alma da corporação, que vê suas decisões estratégicas questionadas e seu discernimento, antes tido como infalível, posto à prova.
Contudo, se a superfície parece um caos de erros sucessivos, uma análise mais profunda revela que D’Amaro não está tanto criando crises quanto enfrentando e corrigindo as consequências de uma miopia estratégica preexistente. O cancelamento do acordo com a OpenAI para a ferramenta Sora, por exemplo, embora publicamente anunciado como um revés, pode ser visto como uma ação de prudência. Nenhum dinheiro havia de fato trocado de mãos, e a OpenAI, com sua reorientação e avaliação de US$ 730 bilhões, já sinalizava prioridades distintas. A decisão protegeu a Disney de uma parceria que poderia diluir sua inestimável propriedade intelectual num mar de conteúdo genérico e incerto, sem os devidos resguardos para a propriedade com função social que a Doutrina Social da Igreja sempre defendeu – neste caso, a função cultural e moral de sua vasta galeria de personagens e histórias.
A virtude da veracidade se impõe como baliza indispensável. No caso da temporada de “The Bachelorette”, a decisão de escalar uma influenciadora com histórico público de violência doméstica para um programa de grande visibilidade na TV linear revela uma falha grave de honestidade intelectual e moral. Não se trata apenas de um erro de casting, mas de uma profunda negligência nos critérios de avaliação de talento, que priorizou o sensacionalismo em detrimento da ordem moral pública que uma empresa de entretenimento, especialmente uma com o alcance da Disney, tem o dever de zelar. A ação de D’Amaro, embora custosa, foi uma correção necessária para defender a integridade da marca e a confiança do público, um exercício de prudência tardia que evitou um desastre de relações públicas ainda maior e mais corrosivo.
O que se observa, portanto, é um sintoma da obsessão de certos setores da indústria por um “progresso” tecnológico ou um “engajamento” a qualquer custo, que os leva a negligenciar os princípios mais elementares de veracidade e responsabilidade. O grande G. K. Chesterton, em seu paradoxo habitual, diria que o mundo moderno é como um navio que, em sua busca frenética por novas rotas e inovações no motor, esquece-se de verificar se o próprio leme ainda está conectado à bússola moral. As crises da Disney, sob este olhar, não são apenas eventos isolados de mercado; são manifestações de uma mentalidade que, ao descurar dos fundamentos éticos, acaba por se chocar com a realidade.
Josh D’Amaro herda um desafio: resgatar a Disney de um período em que a busca por expansão e novas fronteiras, seja na IA ou nos games, muitas vezes se deu sem o devido discernimento moral. Sua primeira semana, de certa forma, pode ser lida como um reposicionamento. A questão, para qualquer gigante da comunicação e do imaginário, não é apenas se ela pode sobreviver à tempestade, mas se, ao emergir, ela terá recuperado o norte que a tornará digna de contar histórias que verdadeiramente edifiquem.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.